O NEGÓCIO DA DOAÇÃO
Hilário Silva
O professor chaves, pioneiro da
Doutrina espírita, em Uberaba, Minas, foi procurado por prestigioso amigo
do campo social, que lhe falou sem rebuços:
- Chaves, agora desejo doar duzentos
contos para obras espíritas; entretanto, como você não desconhece, tenho
aspirações políticas desde muito tempo.
O distinto educador, sumamente conhecido por sua virtuosa austeridade,
guardava silêncio.
E o outro prosseguia:
- Já auxiliei construções espíritas
numerosas, mas tudo sem resultado. Tenho apenas recebido ingratidões e
mais ingratidões. É uma lástima. Em toda parte, mentiras e mentiras.
Queria, desse modo...
Como a reticência se prolongasse,
Chaves perguntou:
- Queria o que, meu amigo?
- Desejava a sua palavra empenhada, o
apoio de seu prestígio diante dos espíritas, para que me garantissem o
voto.
- Nada posso fazer – disse o
professor, peremptório.
- Que é isso? – falou o amigo, com ar
de censura - você prometeu receber-me e atender ao meu problema.
- Pensei que o senhor estivesse
tratando de caridade, mas o que francamente procura é a realização de um
negócio – disse Chaves, imperturbável.
- Que idéia! – falou o visitante,
desencantado. – Entrego duzentos contos, duzentos contos de réis... Que é
caridade, então?
Humilde e simples, o professor
explicou:
- Caridade é o amor de Deus no coração
humano. E esse amor, meu amigo, conforme nos ensina o Espiritismo, não tem
preço. Onde é que o senhor já viu alguém pagar a luz do sol, a bênção do
ar, o tesouro do verdadeiro amor ou o espetáculo do céu estrelado?...
- Mas Chaves, disse o outro -, isso é
muita filosofia... O que eu desejo é fazer uma dádiva...
Para vocês, espíritas, o que vem a ser
uma dádiva?
E o educador
respondeu sereno:
- Dádiva é o bem que
a gente faz sem esperar recompensa de coisa alguma.
O político, nervoso, despediu-se e
procurou distração num bilhar. E inquirido por alguns correligionários
quanto aos resultados da entrevista, deu primorosa tacada e falou que o
professor João Augusto Chaves não passava de um louco.
Espírito: Hilário
Silva - Psicografia: Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.
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