O LIVRO - LIBELO
Hilário Silva
O distinto causídico
não ocultava a ojeriza que experimentava pela Doutrina Espírita. Fosse onde
fosse, se a conversa versasse sobre algum tema de Espiritismo, escorregava
deliberadamente para o sarcasmo. “Essa história de Espiritismo só num
tratado psiquiátrico”. – dizia irônico -, e destilava pequenas difamações
como quem debulhava espigas de brasas. Tão azedo adversário se fizera, que
aproveitou largo período de férias, em fazenda silenciosa, para escrever um
livro contra os postulados espíritas. Livro-acusação. Livro de ódio. Nos
serões caseiros, costumava ler para os amigos esse ou aquele trecho, em que
médiuns eram denunciados de maneira cruel. E riam-se, ele e os companheiros,
entre um e outro gole de uísque, salpicando a lama esfogueante em forma de
letras.
O distinto advogado
assumia as primeiras responsabilidades para enviar o volume à editora,
quando sobreveio o inesperado.
Dirigia o carro
elegante, nas proximidades de um Grupo escolar, quando atarantado pequeno, a
correr desorientado, lhe cai sob as rodas.
Um passarinho sob um
trator não morreria mais depressa.
Tumulto. Autoridades
em cena.
Ele mesmo, suportando
os impropérios do povo, apanha o cadáver minúsculo e, de coração agoniado,
busca a residência da vítima.
Em sã consciência não
é culpado, mas tem o coração alanceado de intensa dor.
Chorando
copiosamente, entrega o menino morto aos pais em pranto, que o recebem sem a
mínima queixa.
O pai acaricia os
cabelos da criança, em silêncio, e a mãezinha ora em lágrimas.
Deseja ser humilhado,
acusado, ferido. Isso, decerto, lhe diminuiria a tensão. Encontra ali,
porém, apenas resignação e a serenidade.
O advogado consulta
então a família sobre a instauração do processo de indenização, mas o chefe
da família responde firme:
- Nada disso. O
doutor não teve culpa alguma. Ninguém faria isso por querer... Os desígnios
de Deus foram cumpridos...
E a mãe do menino
enxugando o rosto, acrescenta:
- Choramos, como é
natural, mas não desejamos indenização alguma. Deus sabe o que faz.
O causídico, de olhos
vermelhos, considerou:
- Então...
- Doutor, não se
preocupe... Compreendemos perfeitamente que o senhor não tem culpa... O
senhor está sofrendo tanto quanto nós... Ore conosco, a fim de acalmar-se.
Admirando-lhes a
paciência cristã, indagou vacilante:
- Que religião
professam?
- Nós somos espíritas
– informou o pai da pequena vítima.
O advogado baixou a
cabeça e ali permaneceu sensibilizado e prestimoso, até a realização dos
funerais.
E à noite, em casa,
de coração opresso e transformado, fechou-se no quarto e rasgou o
livro-libelo que havia escrito.
Espírito: Hilário Silva -
Psicografia: Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.
Livro: A Vida Escreve
– Primeira Parte – Médium: Waldo Vieira |