CAUSA E EFEITO
Emmanuel
Enoque era um ancião
que se abeirava dos cem janeiros.
Residindo numa choça
que se encostava a uma peroba, cuja idade renteava com a dele,
alimentava-se de frutas e chá que improvisava com folhas aromáticas e água
quente.
Entre aqueles
viajantes e amigos que atravessavam a estrada, a poucos metros de sua
moradia, a fim de revê-lo, o agricultor José Prado, procurou-lhe a
amenidade da companhia e indagou, com respeito:
-Enoque, você
acredita na lei de causa e efeito?
Como não? -
respondeu o interpelado com voz trêmula. A idade me pesa nas costas, há
vários decênios, e nunca vi um só caso em que essa lei da vida viesse a
falhar.
E, virando para o
interlocutor os velhos braços; acentuou: - a propósito de que o senhor me
fez essa pergunta?
O amigo não se
melindrou e narrou pensativo:
-Há cinco anos,
entrei em luta corporal com o Joaquim Mota, que é seu conhecido, e, na
briga, cortei-lhe dois dedos da mão esquerda, que sangrou
abundantemente... Depois de algum tempo pedi-lhe perdão do gesto impensado
e ele não só me perdoou, como também me convidou para um café em sua
própria casa. Senti grande alívio, porque me achava arrependido da
violência que praticara e voltei ao trabalho em meus canaviais. Ontem,
porém, coloquei meu facão num galho de árvore, para limpar a plantação
nova e distraí-me sem notar que o dia de calor nos mergulhara a todos, os
meus auxiliares e eu, numa ventania brava. Aproximava-se o aguaceiro e
corremos, em busca dos restos da casa velha do Antonio e quando passei, a
passo rápido, sob o galho da Aroeira que me guardava o facão, ei-lo que se
despenca sobre mim, sem motivo aparente me cortando dois dedos da mão
esquerda, como sucedera no dia que mutilei a mão do Joaquim Mota.
O narrador fez uma
pausa e finalizou:
-O senhor acredita
que eu tenha sido executado segundo a lei de causa e efeito?
-Acredito, sim...
-Entretanto -
observou o visitante, não posso esquecer que o Mota já me perdoara.
Enoque fez um gesto
expressivo de afirmação e explicou:
-Mota lhe perdoara a
ofensa, mas a lei lhe havia registrado o gesto impulsivo e terá
considerado que o perdão do amigo lhe oferecia a oportunidade, a fim de
que a dor de seus dois dedos lhes advertisse para não repetir o ato que
lhe impunha dor e arrependimento ao coração.
Enoque - solicitou o
amigo, fale-nos então dessa lei que não podemos burlar!...
O velhinho
levantou-se com muita dificuldade e, ali mesmo, retirou da mesa tosca um
ensebado exemplar do Novo Testamento e esclareceu:
-Meu amigo; estou no
fim de minha longa existência e já não disponho de tempo para longas
conversações. Quando preciso de alguma explicação, recorro aos
ensinamentos de Jesus e sempre tenho a resposta. Abra este livro e veja o
que o Mestre nos diz.
Intranqüilo, o
consulente abriu o rolo e achou do Apóstolo Mateus lendo o Versículo no.
52 do Capítulo 26, em que Jesus adverte a nós todos; "quem com ferro fere
com ferro será ferido...".
Da Obra “A Semente De Mostarda” –
Espírito: Emmanuel –
Médium: Francisco Câncido Xavier
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