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O SÉCULO
XIX
Emmanuel
DEPOIS DA REVOLUÇÃO
Afastado Napoleão dos movimentos políticos
da Europa, adotam-se no Congresso de Viena, em 1815, as mais vastas
providências para o ressurgimento dos povos europeus.
A diplomacia realiza memoráveis feitos,
aproveitando as dolorosas experiências daqueles anos de extermínio e de
revolução.
Luís XVIII, conde de Provença, irmão de Luís
XVI, é reposto no trono francês, restabelecendo-se naquela mesma época
antigas dinastias. Também a Igreja é contemplada no grande inventário,
restituindo-se-lhe os Estados onde fundara o seu reino perecível.
Um sopro de paz reanima aquelas
coletividades esgotadas na luta fratricida, ensejando a intervenção
indireta das forças invisíveis na reconstrução patrimonial dos grandes
povos.
Muitas reformas, porém, se haviam verificado
após os movimentos sanguinolentos iniciados em 89. Mormente na França,
semelhantes renovações foram mais vastas e numerosas. Além de se
beneficiar o governo de Luís XVIII com as imitações do sistema inglês,
vários princípios liberais da Revolução foram adotados, tais como a
igualdade
dos cidadãos perante a lei, a liberdade de
cultos, estabelecendo-se, a par de todas as conquistas políticas e
sociais, um regime de responsabilidade individual no mecanismo de todos os
departamentos do Estado. A própria
Igreja, habituada a todas as arbitrariedades
na sua feição dogmática, reconheceu a limitação dos seus poderes junto das
massas, resignando-se com a nova situação.
INDEPENDÊNCIA POLÍTICA DA AMÉRICA
A maioria dos povos do planeta, acompanhando
o curso dos acontecimentos, procurou eliminar os últimos resquícios do
absolutismo dos tronos, aproximando-se dos ideais republicanos ou
instituindo o regime constitucional, com a restrição de poderes dos
soberanos.
A América, destinada a receber as sagradas
experiências da Europa, para a civilização do futuro, busca aplicar os
grandes princípios dos filósofos franceses à sua vida política, caminhando
para a mais perfeita emancipação. Seguindo o exemplo das colônias
inglesas, os quatro vice-reinados da Espanha procuraram lutar pela sua
independência. No México os patriotas não toleraram outra soberania além
da própria e, no Sul, com a ação de Bolívar e com as deliberações do
Congresso de Tucumã, em 1816, proclamava-se a liberdade política das
províncias da América Meridional. O Brasil, em 1822, erguia igualmente o
seu brado de emancipação com Pedro I, sendo digno de notar-se o esforço do
plano invisível na manutenção da sua integridade territorial, quando toda
a zona sul do continente se fracionava em pequenas repúblicas, atento à
missão do povo brasileiro na civilização do porvir.
ALLAN KARDEC E OS SEUS COLABORADORES
O século XIX desenrolava uma torrente de
claridades na face do mundo, encaminhando todos os países para as reformas
úteis e preciosas.
As lições sagradas do Espiritismo iam ser
ouvidas pela Humanidade sofredora. Jesus, na sua magnanimidade, repartiria
o pão sagrado da esperança e da crença com todos os corações.
Allan Kardec, todavia, na sua missão de
esclarecimento e consolação, fazia-se acompanhar de uma plêiade de
companheiros e colaboradores, cuja ação regeneradora não se manifestaria
tão-somente nos problemas de ordem doutrinária, mas em todos os
departamentos da atividade intelectual do século XIX. A Ciência, nessa
época, desfere os vôos soberanos que a conduziriam às culminâncias do
século XX. O progresso da arte tipográfica consegue interessar todos os
núcleos de trabalho humano, fundando-se bibliotecas circulantes, revistas
e jornais numerosos. A facilidade de comunicações, com o telégrafo e as
vias férreas, estabelece o intercâmbio direto dos povos. A literatura
enche-se de expressões notáveis e imorredouras. O laboratório afasta-se
definitivamente da sacristia, intensificando as comodidades da
civilização. Constrói-se a pilha de coluna, descobre-se a indução
magnética, surgem o telefone e o fonógrafo. Aparecem os primeiros sulcos
no campo da radiotelegrafia, encontra-se a análise espectral e a unidade
das energias físicas da Natureza. Estuda-se a teoria atômica e a
fisiologia assenta bases definitivas com a anatomia comparada. As artes
atestam uma vida nova. A pintura e a música denunciam elevado sabor de
espiritualidade avançada.
A dádiva celestial do intercâmbio entre o
mundo visível e o invisível chegou ao planeta nessa onda de claridades
inexprimíveis. Consolador da Humanidade, segundo as promessas do Cristo, o
Espiritismo vinha esclarecer os homens, preparando-lhes o coração para o
perfeito aproveitamento de tantas riquezas do Céu.
AS CIÊNCIAS SOCIAIS
O campo da Filosofia não escapou a essa
torrente renovadora. Aliando-se às ciências físicas, não toleraram as
ciências da alma o ascendente dos dogmas absurdos da Igreja. As confissões
cristãs, atormentadas e divididas, viviam nos seus templos um combate de
morte. Longe de exemplificarem aquela fraternidade do Divino Mestre,
entregavam-se a todos os excessos do espírito de seita. A Filosofia
recolheu-se, então, no seu negativismo
transcendente, aplicando às suas
manifestações os mesmos princípios da ciência racional e materialista.
Schopenhauer é uma demonstração eloqüente do seu pessimismo e as teorias
de Spencer e de Comte
esclarecem as nossas assertivas, não
obstante a sinceridade com que foram lançadas no vasto campo das idéias.
A Igreja Romana era culpada de semelhantes
desvios. Dominando a ferro e fogo, conchegada aos príncipes do mundo, não
tratara de fundar o império espiritual dos corações à sua sombra
acolhedora. Longe da exemplificação do Nazareno, amontoara todos os
tesouros inúteis, intensificando as necessidades das massas sofredoras.
Extorquia, antes de dar, conservando a ignorância em vez de espalhar a luz
do conhecimento.
A TAREFA DO MISSIONÁRIO
A tarefa de Allan Kardec era difícil e
complexa. Competia-lhe reorganizar o edifício desmoronado da crença,
reconduzindo a civilização às suas profundas bases religiosas.
Atento à missão de concórdia e fraternidade
da América, o plano invisível localizou aí as primeiras manifestações
tangíveis do mundo espiritual, no famoso lugarejo de Hydesville,
provocando os mais largos movimentos de opinião. A fagulha partira das
plagas americanas, como partira igualmente delas a consolidação das
conquistas democráticas.
A Europa busca ambientar as idéias novas e
generosas, que encontram o discípulo no seu posto de oração e vigilância,
pronto a atender aos chamamentos do Senhor. Numerosos cooperadores diretos
da sua tarefa auxiliam-lhe o esforço sagrado, desdobrando-lhe as sínteses
em gloriosos complementos. O orbe, com as suas instituições sociais e
políticas, havia atingido um período de grandiosas transformações, que
requeriam mais de um século de lutas dolorosas e remissoras, e o
Espiritismo seria a essência dessas conquistas novas, reconduzindo os
corações ao Evangelho suave do Cristianismo.
PROVAÇÕES COLETIVAS NA FRANÇA
Cumpre-nos assinalar as dolorosas provas da
França, depois dos seus excessos na Revolução e nas campanhas
napoleônicas. Depois das revoluções de 1830 e 1848, mediante as quais se
efetuam penosos resgates por parte dos indivíduos e das coletividades,
surge a guerra franco-prussiana de 1870. A grande nação latina, por causas
somente conhecidas no plano espiritual, é esmagada e vencida pela
orgulhosa Alemanha de Bismarck, que, por sua vez, embriagada e cega no
triunfo, ia fazer jus às dores amargas de 1914 -1918.
Paris, que assistira com certa indiferença
às dores dos condenados do Terror, comparecendo aos espetáculos tenebrosos
do cadafalso e aplaudindo os opressores, sofre miséria e fome em 1870,
antes de cair em poder dos impiedosos inimigos, em 28 de janeiro de 1871.
As imposições políticas do imperador Guilherme, em Versalhes, e as
amarguras coletivas do povo francês nos dias da derrota, significam o
resgate dos desvios da grande nação latina.
PROVAÇÕES DA IGREJA
Aproximando-se o ano de 1870, que
assinalaria a falência da Igreja com a declaração da infalibilidade papal,
o Catolicismo experimenta provações amargas e dolorosas.
Exaustos de suas imposições, todos os povos
cultos da Europa não enxergaram nas suas instituições senão escolas
religiosas, limitando-se-lhes as finalidades educativas e
controlando-se-lhes o mecanismo de atividades.
Compreendendo que o Cristo não tratara de
açambarcar nenhum território do Globo, os italianos, naturalmente,
reclamaram os seus direitos no capítulo das reivindicações, procurando
organizar a unidade da Itália sem a tutela do Vaticano. Desde 1859,
estabelecera-se a luta, que foi por muito tempo prolongada em vista da
decisão da França, que manteve todo um exército em Roma para garantia do
pontífice da Igreja. Mas a situação de 1870 obrigara o povo francês a
reclamar a presença dos guardas do Vaticano, triunfando as idéias de
Cavour e privando-se o papa de todos os poderes temporais, restringindo-se
a sua posse material.
Começa, com Pio IX, a grande lição da
Igreja.
O período das grandes transformações estava
iniciado, e ela, que sempre ditara ordens aos príncipes do mundo, na sua
sede de domínio, iria tornar-se instrumento de opressão nas mãos dos
poderosos.
Observava-se um fenômeno interessante. A
Igreja, que nunca se lembrara de dar um título real à figura do Cristo,
assim que viu desmoronarem-se os tronos do absolutismo com as vitórias da
República e do Direito, construiu a imagem do Cristo-Rei para o cume dos
seus altares.
Livro: A Caminho da
Luz Médium: Francisco Cândido Xavier Espírito: Emmanuel |