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AS CRUZADAS E O
FIM DA IDADE MÉDIA
Emmanuel
AS PRIMEIRAS CRUZADAS
Reportando-nos ao século XI, as Cruzadas nos
merecem especial referência, dados os seus movimentos, característicos da
época.
Desde Constantino que os lugares santos da
Palestina haviam adquirido considerável importância para a Europa
ocidental. Milhares de peregrinos visitavam anualmente a paisagem triste
de Jerusalém, identificando os caminhos da Paixão de Jesus, ou os traços
da vida dos Apóstolos. Enquanto dominavam na região os árabes de Bagdá ou
do Egito, as correntes do turismo católico podiam buscar, sem receio, as
paragens sagradas; mas a Jerusalém do século XI havia caído sob o poder
dos turcos, que não mais toleraram a presença dos cristãos, expulsando-os
dali com a máxima crueldade.
Semelhantes medidas provocam os protestos de
todo o mundo católico do Ocidente e, no fim do referido século,
preparam-se as primeiras cruzadas em busca da vitória contra o infiel. A
primeira expedição que saiu dos centros mais civilizados, sob o comando de
Pedro, o Eremita, não chegou a ausentar-se da Europa, dispersada que foi
pelos búlgaros e húngaros. Todavia, em 1096, Godofredo de Bouillon com
seus irmãos e Tancredo de Siracusa e outros chefes, depois de se reunirem
em Constantinopla, demandaram Nicéia, com um exército de 500.000 homens.
Depois da presa de Nicéia, apoderaram-se de Antioquia, penetrando em
Jerusalém com a palma do triunfo. Ali quiseram presentear Godofredo de
Bouillon com a coroa de rei, mas o duque da Baixa Lorena parecia rever o
vulto luminoso do Senhor do Mundo, cuja fronte fora aureolada com a coroa
de espinhos, e considerou sacrilégio o colocarem-lhe nas mãos um cetro de
ouro, quando o Cristo tivera, tão-somente, nas mãos augustas e
compassivas, uma cana ignominiosa. Depois de muita relutância, aceitou
apenas o título de "defensor do Santo Sepulcro", organizando-se logo em
seguida as ordens religiosas de caráter exclusivamente militar, como a dos
Templários e a dos Hospitalários.
Os turcos, porém, não descansaram. Depois de
muitas lutas, apossaram-se de Edessa, obrigando o papa Eugênio III a
providenciar a segunda Cruzada, que, chefiada por Luís VII da França e
Conrado III da Alemanha, teve os mais desastrosos efeitos.
FIM DAS CRUZADAS
Em fins do século XII Jerusalém cai em poder
de Saladino. Os príncipes cristãos do Ocidente preparam-se para a terceira
Cruzada, assinalando-se as vitórias de S. João d'Acre. As lutas no Oriente
sucederam-se anos a fio como furacões periódicos e devastadores. A
Palestina possuía, até então, os seus recantos maravilhosos de verdura
abundante. A Galiléia era um vasto jardim, cheio de perfume e de flores.
Mas tantos foram os embates dos exércitos inimigos, tantas as lutas de
extermínio e de ambição, que a própria Natureza pareceu maldizer para
sempre os lugares que mereciam o amor e o carinho dos homens.
As últimas Cruzadas foram dirigidas por Luís
IX, o rei santo de França que, depois da tomada de Damieta, caiu em poder
dos inimigos, pagando fabuloso resgate e vindo a desprender-se da vida
terrestre em 1270, defronte de Túnis, vitimado pela peste.
Os mensageiros de Jesus, que de todos os
acontecimentos sabem extrair os fatores da evolução humana para o bem,
buscam aproveitar a utilidade desses acontecimentos dolorosos. Foi por
essa razão que as Cruzadas, não obstante o seu caráter anticristão,
fizeram-se acompanhar de alguns benefícios de ordem econômica e social
para todos os povos. Na Europa a sua influência foi regeneradora,
enfraquecendo a tirania dos senhores feudais e renovando a solução dos
problemas da propriedade, conjurando muitas lutas isoladas. Além disso, os
seus movimentos intensificaram, sobremaneira, as relações do Ocidente com
o Oriente, apenas paralisadas mais tarde, em vista da ferocidade dos
turcos e dos invasores mongóis.
O ESFORÇO DOS EMISSÁRIOS DO CRISTO
No Infinito, reúnem-se os emissários do
Divino Mestre, em assembléias numerosas, sob a égide do seu pensamento
misericordioso, organizando novos trabalhos para a evolução geral de todos
os povos do planeta. Lamentam a inabilidade de muitos missionários do bem
e do amor, que, partindo dos Espaços, saturados dos melhores e mais santos
propósitos, experimentam no orbe a traição das próprias forças,
influenciados pela imperfeição rude do meio a que foram conduzidos.
Muitos deles se deixavam deslumbrar pelas
riquezas efêmeras, mergulhando no oceano das vaidades dominadoras,
estacionando nos caminhos evolutivos, e outros, como Luís IX, de França,
excediam-se no poder e na autoridade, cometendo atos de quase selvajaria,
cumprindo os seus sagrados deveres espirituais com poucos benefícios e
amplos prejuízos gerais para as criaturas.
Mas, compelidas pelas leis do amor que regem
o Universo, essas entidades compassivas jamais negaram do Alto o seu
desvelado concurso a favor do progresso dos povos, procurando aperfeiçoar
as almas e guiando os missionários do Cristo através dos mais espinhosos
caminhos.
POBREZA INTELECTUAL
No século XIII estava definitivamente
instalado o governo real, desaparecendo as mais fortes expressões do
feudalismo. Cada região européia tratava de concatenar todos os elementos
precisos à organização de sua unidade política, mas a verdade é que os
meios escassos de instrução não permitiam uma existência intelectual mais
avançada.
Os Estados que se levantavam, organizavam as
suas construções à sombra da Igreja, que tinha interesse em não dilatar os
domínios da educação individual, receosa de interpretações que não fossem
propriamente dela. Os pergaminhos custavam verdadeiras fortunas e o livro
era dificilmente encontrado. Até o século XII as escolas estavam
circunscritas ao ambiente dos mosteiros, onde muitos padres se ocupavam de
avivar a letra dos manuscritos mais antigos, produzindo outros para a
posteridade. A Ciência, cuja linha ascensional guarda o seu ponto de
princípio na curiosidade ou na dúvida, bem como a Filosofia, que se
constitui das mais altas indagações espirituais, estavam totalmente
escravizadas à Teologia, então senhora absoluta de todas as atividades do
homem, com poderes de vida e morte sobre as criaturas, considerando-se os
direitos absurdos do Tribunal da Inquisição, depois do século XIII,
quando, sob a inspiração do Alto, já se haviam fundado universidades
importantes como as de Paris e de Bolonha, que serviram de modelo às de
Oxford, Coimbra e Salamanca.
RENASCIMENTO
A esse tempo opera-se um verdadeiro
renascimento na vida intelectual dos povos mais evolvidos do mundo
europeu. A universidade se constituía de quatro faculdades - Teologia,
Medicina, Direito e Artes - reunindo milhares de inteligências ávidas de
ensino, que seriam os grandes elementos de preparação do porvir. Rogério
Bacon, franciscano inglês, notável por seus estudos e iniciativas, é um
dos pontos culminantes dessa renascença espiritual. A Igreja, contudo,
proibindo o exame e a livre opinião, prejudicou esse surto evolutivo,
máxime no capítulo da Medicina, que, desprezando a observação atenta de
todos os fatos, se entregou à magia, com sérios prejuízos para as
coletividades. Favorecida pela necessidade dos panoramas imponentes do
culto externo da religião e pela fortuna particular, a Arquitetura foi a
mais cultivada de todas as artes, em vista das grandes e numerosas
construções então em voga. Com a influência indireta dos Guias espirituais
dos vários agrupamentos de povos, consolidam-se as expressões lingüísticas
de cada país, formando-se as grandes tradições literárias de cada região.
TRANSMIGRAÇÃO DE POVOS
É então que inúmeros mensageiros de Jesus,
sob a sua orientação, iniciam largo trabalho de associação dos Espíritos,
de acordo com as tendências e afinidades, a fim de formarem as nações do
futuro, com a sua personalidade coletiva. A cada uma dessas nacionalidades
seria cometida determinada missão no concerto dos povos futuros, segundo
as determinações sábias do Cristo, erguendo-se as bases de um mundo novo,
depois de tantos e tão continuados desastres da fraqueza humana.
Constroem-se os alicerces dos grandes países como a Inglaterra, que, em
1258, organiza os Estatutos de Oxford, limitando os poderes de Henrique
III, e em 1265 erige a Câmara dos Comuns, onde a burguesia e as classes
menos favorecidas têm a palavra com a Câmara dos Lordes. A Itália
prepara-se para a sua missão de latinidade. A Alemanha se organiza. A
Península Ibérica é imensa oficina de trabalho e a França ensaia os passos
definitivos para a sabedoria e para a beleza.
A atuação do mundo espiritual proporciona à
história humana a perfeita caracterização da alma coletiva dos povos. Como
os indivíduos, as coletividades também voltam ao mundo pelo caminho da
reencarnação. É assim que vamos encontrar antigos fenícios na Espanha e em
Portugal, entregando-se de novo às suas predileções pelo mar. Na antiga
Lutécia, que se transformou na famosa Paris do Ocidente, vamos achar a
alma ateniense nas suas elevadas indagações filosóficas e científicas,
abrindo caminhos claros ao direito dos homens e dos povos. Andemos mais um
pouco e acharemos na Prússia o espírito belicoso de Esparta, cuja educação
defeituosa e transviada construiu o espírito detestável do pangermanismo
na Alemanha da atualidade. Atravessemos a Mancha e deparar-se-nos-á na
Grã-Bretanha a edilidade romana, com a sua educação e a sua prudência,
retomando de novo as rédeas perdidas do Império Romano, para beneficiar as
almas que aguardaram, por tantos séculos, a sua proteção e o seu auxílio.
FIM DA IDADE MEDIEVAL
Do plano invisível e em todos os tempos, os
Espíritos abnegados acompanharam a Humanidade em seus dias de martírio e
glorificação, lutando sempre pela paz e pelo bem de todas as criaturas.
Referindo-nos, de escantilhão, à nobre
figura de Joana d'Arc, que cumpriu elevada missão adstrita aos princípios
de justiça e de fraternidade na Terra, e às guerras dolorosas que
assinalaram o fim da idade medieval, registramos aqui, que, com as
conquistas tenebrosas de Gêngis Khan e de Tamerlão e com a queda de
Constantinopla, em 1453, que ficou para sempre em poder dos turcos,
verificava-se o término da época medieval.
Uma nova era despontava para a Humanidade
terrestre, com a assistência contínua do Cristo, cujos olhos
misericordiosos acompanham a evolução dos homens, lá dos arcanos do
Infinito.
Livro: A Caminho da
Luz Médium: Francisco Cândido Xavier Espírito: Emmanuel |