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OS ABUSOS DO PODER
RELIGIOSO
Emmanuel
FASES DA IGREJA CATÓLICA
Apesar dos numerosos desvios da Igreja
romana, que esquecera os princípios cristãos tão logo que chamada aos
gabinetes da política do mundo, nunca o Catolicismo foi de todo abandonado
pelas potências do bem, no mundo espiritual. Advertências inúmeras lhe
foram enviadas em todos os tempos da sua vida histórica, pela misericórdia
do Cristo, condoído da impiedade de quantos, sob o seu nome, manchavam o
altar dos templos.
Enquanto esteve subordinada aos imperadores
de Constantinopla, a instituição católica trabalhou para libertar-se de
semelhante tutela, procurando a mais ampla independência espiritual,
somente conseguida depois do papa Estêvão II, em 756, com a organização do
chamado Patrimônio de São Pedro. A esse tempo, os vários soberanos da
época dispunham da Igreja de acordo com os seus caprichos pessoais,
conferindo dignidades eclesiásticas às consciências mais apodrecidas. A
sede do Catolicismo se transformara em vasto mercado de títulos
nobiliárquicos de toda a espécie. Até depois do século X, semelhante
situação de descalabro moral marchava para a frente, num crescendo
espantoso. Os Apóstolos do Divino Mestre, nas claridades do Infinito,
deploram semelhantes espetáculos de indigência espiritual e promovem a
reencarnação de numerosos auxiliares da tarefa remissora, nas hostes da
regra de São Bento. Estes missionários da verdade e do bem operam a
restauração do mosteiro de Cluny, de onde sairiam pensamentos novos e
energias regeneradoras.
GREGÓRIO VII
Foi nesse movimento de restauração que
Hildebrando, conhecido como Gregório VII, ouvindo as inspirações que lhe
desciam ao coração, do plano invisível, preparou-se para a missão que o
esperava no Vaticano. Sua figura é das mais importantes do século XI, pela
fé e pela sinceridade que lhe caracterizaram as atitudes. Eleito papa,
após a desencarnação de Alexandre II, reconheceu que as primeiras
providências que lhe competiam eram as do combate ao simonismo no seio da
instituição católica e as do restabelecimento da autoridade da Igreja, que
ele desejou sinceramente reconduzir ao seio do Cristianismo, embora as
lutas sustentadas contra Henrique IV façam parecer o contrário. Convocando
um concílio em Roma, no ano de 1074, procurou reprimir a enormidade de
tantos abusos referentes ao mercado dos sacramentos e às honras
eclesiásticas. Filipe I e Henrique IV prometem amparo e auxílio às
decisões do pontífice, no sentido de regenerar a organização da Igreja.
Henrique IV, porém, prestigiado pelos bispos culpados de simonia, fugiu ao
cumprimento da promessa e, depois de exortado por Gregório VII, tenta
depô-lo, reunindo em Worms um sínodo de sacerdotes transviados. O papa
excomunga o príncipe rebelado, ocorrendo então os célebres acontecimentos
de Canossa. A luta ainda não havia terminado, quando Gregório VII se
desprende do mundo em 1085, deixando, porém, o caminho preparado para a
Concordata de Worms, que se realizaria em 1122 com Henrique V, com a
independência da Igreja e a regeneração aproximada de sua disciplina.
AS ADVERTÊNCIAS DE JESUS
Instalada nas suas imensas riquezas e
dispondo de todo o poder e autoridade, a Igreja poucas vezes compreendeu a
tarefa de amor, que competia à sua missão educativa.
Habituada a mandar sem restrições, muitas
vezes recebeu as advertências de Jesus à conta de heresias condenáveis,
que era preciso combater e profligar.
As exortações do Alto não se faziam sentir
tão-somente no seio das ordens religiosas, onde penitentes humildes
proporcionavam aos seus orgulhosos superiores eclesiásticos as mais santas
lições da piedade cristã. Também na sociedade civil as sementes de luz
deixavam entrever os mais esperançosos rebentos de compreensão e de
sabedoria, acerca do Evangelho e dos exemplos do Cristo. Neste caso está
Pedro de Vaux, que, embora sendo um homem de negócios, em Lião,
desligou-se de todos os laços que o prendiam às riquezas humanas,
despojando-se de todos os bens em favor dos pobres e necessitados,
comovido com a leitura da exemplificação de Jesus no seu Evangelho de amor
e redenção. Esse homem extraordinário, a quem fora cometida a missão de
instrumento da vontade do Senhor, mandou traduzir os livros sagrados para
leitura pública e, junto de outros companheiros que passaram à História
com o nome de valdenses, iniciou amplo movimento de pregações evangélicas,
à maneira dos tempos apostólicos. Os "Pobres de Lião" foram excomungados,
primeiramente pelo arcebispo da cidade e mais tarde, em 1185, pelo
pontífice do Vaticano. A Igreja não poderia tolerar outra doutrina que não
a sua, feita de orgulho e mal disfarçada ambição. Qualquer lembrança
verdadeira e sincera, do seu divino Fundador, era tomada como heresia
abominável e suscetível das mais severas punições. A verdade, porém, é
que, se os valdenses foram caluniados pelas forças católicas, suas
pregações e apelos nunca mais desapareceram do mundo desde o século XI,
porque, com vários nomes, as suas organizações subsistiram na Europa até à
Reforma, não obstante os guantes de ferro da Inquisição.
FRANCISCO DE ASSIS
Os apelos do Alto continuaram a solicitar a
atenção da Igreja romana em todas as direções. As chamadas "heresias"
brotavam por toda parte onde houvesse consciências livres e corações
sinceros, mas as autoridades do Catolicismo nunca se mostraram dispostas a
receber semelhantes exortações.
Havia terminado, em 1229, a guerra contra os
hereges, cujos embates atravessaram o espaço de vinte anos, quando alguns
chefes da Igreja consideraram a oportunidade da fundação do tribunal da
penitência, cujos projetos de há muito preocupavam o pensamento do
Vaticano.
Mascarar-se-ia o cometimento com o pretexto
da necessidade de unificação religiosa, mas a realidade é que a
instituição desejava dilatar o seu vasto domínio sobre as consciências.
Todavia, se a Inquisição preocupou
longamente as autoridades da Igreja, antes da sua fundação, o negro
projeto preocupava igualmente o Espaço, onde se aprestaram providências e
medidas de renovação educativa. Por isso, um dos maiores apóstolos de
Jesus desceu à carne com o nome de Francisco de Assis. Seu grande e
luminoso espírito resplandeceu próximo de Roma, nas regiões da Úmbria
desolada. Sua atividade reformista verificou-se sem os atritos próprios da
palavra, porque o seu sacerdócio foi o exemplo na pobreza e na mais
absoluta humildade. A Igreja, todavia, não entendeu que a lição lhe dizia
respeito e, ainda uma vez, não aceitou as dádivas de Jesus.
OS FRANCISCANOS
O esforço poderoso do missionário, todavia,
se não conseguiu mudar a corrente de ambições dos papas romanos, deixou
traços fulgurantes da sua passagem pelo planeta.
Seu exemplo de simplicidade e de amor, de
singeleza e de fé, contagiou numerosas criaturas, que se entregaram ao
santo mister de regenerar almas para Jesus.
A ordem dos Franciscanos chegou a congregar
mais de duzentos mil missionários e seguidores do grande inspirado. Eles
repeliam qualquer auxílio pecuniário, para aceitar tão-somente os
alimentos mais pobres e mais grosseiros, e o característico que mais os
destacava das outras comunidades religiosas era o seu alheamento dos
mosteiros. Em vez de repousarem à sombra dos claustros, na tranqüilidade e
na meditação, esses espíritos abnegados reconheciam que a melhor oração,
para Deus, é a do trabalho construtivo, no aperfeiçoamento do mundo e dos
corações.
A INQUISIÇÃO
Muito pouco valeram as lições do bem, diante
do mal triunfante, porque em 1231 o Tribunal da Inquisição estava
consolidado com Gregório IX. Esse instituto, ironicamente, nesse tempo não
condenava os supostos culpados diretamente à morte - pena benéfica e
consoladora em face dos martírios infligidos aos que lhe caíssem nos
calabouços -, mas podia aplicar todos os suplícios imagináveis.
A repressão das "heresias" foi o pretexto de
sua consolidação na Europa, tornando-se o flagelo e a desdita do mundo
inteiro.
Longo período de sombras invadiu os
departamentos da atividade humana. A penumbra dos templos era teatro de
cenas amargas e sacrílegas. Crimes tenebrosos foram perpetrados ao pé dos
altares, em nome dAquele que é amor, perdão e misericórdia. A instituição
sinistra da Igreja ia cobrir a estrada evolutiva do homem com um sudário
de trevas espessas.
A OBRA DO PAPADO
Há quem tente justificar esses longos
séculos de sombra pelos hábitos e concepções daquele tempo. Mas, a verdade
é que o progresso das criaturas poderia dispensar esse mecanismo de crimes
monstruosos. Por isso, nos débitos romanos pesam essas responsabilidades
tão tremendas quão dolorosas.
A Inquisição foi obra direta do papado, e
cada personalidade, como cada instituição, tem o seu processo de contas na
Justiça Divina. Eis por que não podemos justificar a existência desse
tribunal espantoso, cuja ação criminosa e perversa entravou a evolução da
Humanidade por mais de seis longos séculos.
Livro: A Caminho da
Luz Médium: Francisco Cândido Xavier Espírito: Emmanuel |