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A IGREJA E A
INVASÃO DOS BÁRBAROS
Emmanuel
VITÓRIAS DO CRISTIANISMO
Constantino, no seu caminho de realizações,
consegue levar a efeito a nova organização administrativa do Império,
começada no governo de Diocleciano, dividindo-o em quatro Prefeituras, que
foram as do Oriente, da Ilíria, da Itália e das Gálias, que, por sua vez,
eram divididas em dioceses dirigidas respectivamente por prefeitos e
vigários.
Com a influência do vencedor da ponte
Mílvius, efetua-se o Concílio ecumênico de Nicéia para combater o cisma de
Ário, padre de Alexandria, que negara a divindade do Cristo. Os primeiros
dogmas católicos saem, com força de lei, desse parlamento eclesiástico de
325.
Findo o reinado de Constantino, aparecem os
seus filhos, que lhe não seguem as tradições. Em seguida, Juliano,
sobrinho do imperador, eleva-se ao poder tentando restaurar os deuses
antigos, em detrimento da doutrina cristã, embora compreendesse a
ineficácia do seu tentâmen.
Mas, por volta do ano 381, surge a figura de
Teodósio, que declara o Cristianismo religião oficial do Estado,
decretando, simultaneamente, a extinção dos derradeiros traços do
politeísmo romano. É então que todos os povos reconhecem a grande força
moral da doutrina do Crucificado, pelo advento da qual milhares de homens
haviam dado a própria vida no campo do martírio e do sacrifício, vendo-se
o imperador, em 390, ajoelhar-se humildemente aos pés de Ambrósio, bispo
de Milão, a penitenciar-sedas crueldades com que reprimira a revolta dos
tessalonicenses.
PRIMÓRDIOS DO CATOLICISMO
O Cristianismo, porém, já não aparecia com
aquela mesma humildade de outros tempos. Suas cruzes e cálices deixavam
entrever a cooperação do ouro e das pedrarias, mal lembrando a madeira
tosca, da época gloriosa das virtudes apostólicas.
Seus concílios, como os de Nicéia,
Constantinopla, Éfeso e Calcedônia, não eram assembléias que imitassem as
reuniões plácidas e humildes da Galiléia. A união com o Estado era motivo
para grandes espetáculos de riqueza e vaidade orgulhosa, em contraposição
com os ensinos dAquele que não possuía uma pedra para repousar a cabeça
dolorida.
As autoridades eclesiásticas compreendem que
é preciso fanatizar o povo, impondo-lhe suas idéias e suas concepções, e,
longe de educarem a alma das massas na sublime lição do Nazareno, entram
em acordo com a sua preferência pelas solenidades exteriores, pelo culto
fácil do mundo externo, tão do gosto dos antigos romanos pouco inclinados
às indagações transcendentes.
A IGREJA DE ROMA
A igreja de Roma, que antes da criação
oficial do Papado considerava-se a eleita de Jesus, ao arvorar-se em
detentora dasordenações de Pedro, não perdia ensejos de firmar a sua
injustificável primazia junto às suas congêneres de Antioquia, de
Alexandria e dos demais grandes centros da época. Herdando os costumes
romanos e suas disposições multisseculares, procurou um acordo com as
doutrinas consideradas pagãs, pela posteridade, modificando as tradições
puramente cristãs, adaptando textos, improvisando novidades
injustificáveis e organizando, finalmente, o Catolicismo sobre os
escombros da doutrina deturpada. Os bispos de Roma, abusando do fácil
entendimento com as autoridades políticas do Estado, impunham suas
inovações arbitrárias, contrariando as sublimes finalidades do ensinamento
dAquele que preconizara a humildade e o amor como os grandes caminhos da
redenção.
É assim que aparecem novos dogmas, novas
modalidades doutrinárias, o culto dos ídolos nas igrejas, as espetaculosas
festas do culto externo, copiados quase todos os costumes da Roma
anticristã.
A DESTRUIÇÃO DO IMPÉRIO
A fraqueza e a impenitência dos homens não
lhes deixou compreender que o Cristianismo fora chamado à tarefa do
governo tão somente para educar o sentimento dos governantes,
preparando-os para levar o esclarecimento e a fraternidade aos outros
povos da Terra, então considerados bárbaros pela cultura do Império.
Não obstante todos os esforços em contrário,
dos mensageiros de Jesus, Bonifácio III cria o Papado em 607,
contrapondo-se a todas as disposições de humildade que deveriam reger a
vida da Igreja. As forças do mal, aliadas à incúria e vaidade dos homens,
haviam obtido um triunfo relativo e transitório.
Os gênios do Espaço, todavia, à claridade
soberana da misericórdia do Senhor, reúnem-se no Infinito, adotando
providências novas, concernentes ao progresso dos homens.
Todos os recursos haviam sido prodigalizados
a Roma, a fim de que as suas expressões políticas e intelectuais se
estendessem pelo orbe, abrangendo todas as gentes no mesmo amplexo de amor
e de unidade; sua alma coletiva, no entanto, havia deturpado todas as
possibilidades sagradas de edificação e renegado todos os grandes
ensinamentos. Advertências penosas não lhe faltaram do Alto, como nos
acontecimentos inesquecíveis e dolorosos do Vesúvio, nas cidades da
Campânia. Séculos de luta e de ensinamento se haviam escoado, sem que a
alma do Império se compenetrasse dos seus deveres necessários.
É então que Jesus determina a transformação
do Império organizado e poderoso. Suas águias orgulhosas haviam singrado
todos os mares, o Mediterrâneo era propriedade sua, todos os povos se lhe
curvavam para a homenagem e para a obediência, mas uma força invisível
arrancou-lhe todos os diademas, tirou-lhe as energias e lhe reduziu as
glórias a um punhado de cinzas.
Até hoje, o espírito que investiga o passado
inquire o motivo desses sinistros arrasamentos; mas a verdade é que todos
os fundamentos da Terra residem em Jesus - Cristo.
A INVASÃO DOS BÁRBAROS
Essas determinações do Cristo, verificadas
após o reinado de Constantino, foram seguidas das primeiras grandes
invasões com os visigodos que, fugindo dos hunos, transpõem o Danúbio e
estabelecem-se no oriente do Império, penetrando depois na Grécia e na
Itália, espalhando flagelos e devastações. Debalde surgem as vitórias de
Estilicão, porque, em 410, atingem elas as portas de Roma, que fica
entregue ao saque e às mais duras humilhações.
Em 405, é Radagásio que parte à frente de
duzentos mil soldados, em demanda da cidade imperial, sendo vencido, porém
roubando as mais fortes economias romanas.
As provas expiatórias do Império prosseguem
numa avalancha de dores amargas. Aparecem as correntes bárbaras dos
alanos, dos vândalos, dos suevos, dos burgúndios. Em 450, os hunos
comandados por Átila atacam as Gálias, perseguindo populações pacíficas e
indefesas. A unidade imperial perde a sua tradição, para sempre. Com as
suas vitórias, funda Clóvis a monarquia dos francos. Os bretões, oprimidos
pela invasão e privados do auxílio dos exércitos romanos, apelam para os
saxônios que povoavam o sul da Jutlândia, organizando-se posteriormente a
Heptarquia Anglo-Saxônia.
O que Roma deveria fazer com a educação e o
amparo perseverantes, aqueles povos rudes e fortes vinham reclamar por si
mesmos.
A grande cidade dos Césares poderia ter
evitado a catástrofe do desmembramento, se levasse a sua cultura a todos
os corações, em vez de haver estacionado tantos séculos à mesa farta dos
prazeres e das continuadas libações.
RAZÕES DA IDADE MÉDIA
A queda do Império Romano determinara no
mundo extraordinárias modificações. Muitas almas heróicas e valorosas, que
se haviam purificado nas lutas depuradoras, não obstante o ambiente
pantanoso dos vícios e das paixões desenfreadas, ascenderam
definitivamente a planos espirituais mais elevados, apenas voltando às
atmosferas do planeta para o cumprimento de enobrecedoras e santificantes
missões.
A desorganização geral com os movimentos
revolucionários dos outros povos do globo terrestre, que embalde esperam o
socorro moral do governo dos imperadores, originara um longo
estacionamento nos processos evolutivos. É ai, nessa época de transições
que agora atinge as suas culminâncias, que vamos encontrar as razões da
Idade Média, ou o período escuro da história da Humanidade. Só esse
ascendente místico da civilização pôde explicar o porque das organizações
feudais, depois de tão grandes conquistas da mentalidade humana, nos
grandes problemas da unidade e da centralização política do mundo. É que
um novo ciclo de civilização começava sob a amorosa proteção do Divino
Mestre, e as últimas expressões espirituais do grande Império retiravam-se
para o silêncio dos santuários e dos retiros espirituais, para chorar na
solidão dos conventos, sobre o cadáver da grande civilização que não
soubera prover ao seu glorioso destino.
MESTRES DO AMOR E DA VIRTUDE
Almas sublimadas e corajosas reencarnam,
então, sob a égide de Jesus e para a grande tarefa de orientar as forças
políticas da igreja romana, agora organizada à maneira das construções
efêmeras do mundo. O Papado era a obra do orgulho e da iniqüidade; mas o
Cristo não desampara os mais infelizes e os mais desgraçados, e foi assim
que surgiram, no seio mesmo da Igreja, alguns mestres do amor e da
virtude, ensinando o caminho claro da evolução aos povos invasores,
trazendo-os ao pensamento cristão e destinando-os aos tempos luminosos do
porvir.
Livro: A Caminho da
Luz Médium: Francisco Cândido Xavier Espírito: Emmanuel |