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A EVOLUÇÃO DO
CRISTIANISMO
Emmanuel
PENOSOS COMPROMISSOS ROMANOS
Debalde tentaram as forças espirituais o
aproveitamento dos romanos na direção suprema do mundo. Todos os recursos
possíveis foram prodigalizados inutilmente à cidade imperial. A
canalização de consideráveis riquezas materiais, possibilitando a
consolidação de um Estado único no planeta, não fora esquecida, ao lado de
todas as providências que se faziam necessárias, do ponto de vista moral.
Em vão, transplantara-se para Roma a extraordinária sabedoria ateniense e
a colaboração de todas as experiências dos povos conquistados.
Os Espíritos encarnados não conseguiram a
eliminação dos laços odiosos da vaidade e da ambição, sentindo-se traídos
em suas energias mais profundas, contraindo débitos penosos, perante os
tribunais da Justiça Divina.
A vinda do Cristo ao cenáculo obscuro do
planeta, trazendo a mensagem luminosa da verdade e do amor, assinalara o
período da maioridade espiritual da Humanidade. Essa maioridade implicava
direitos que, por sua vez, se fariam acompanhar do agravo de
responsabilidades e deveres para a solução de grandes problemas educativos
do coração. Se ao homem físico rasgavam-se os mais amplos horizontes nos
domínios do progresso material, os Evangelhos vinham trazer ao homem
espiritual um roteiro de novas atividades, educando-o convenientemente
para as suas arrojadas conquistas de ciência e de liberdade, com vistas ao
porvir. O aproveitamento desse processo educativo deveria ser levado a
efeito pela capital do mundo, de acordo com os desígnios do plano
espiritual. Pesadas forças da Treva, porém, aliaram-se às mais fortes
tendências do homem terrestre, constantemente inclinado aos liames do mal
que o prendiam à Terra, adstrito aos mais grosseiros instintos de
conservação, e, enquanto os Espíritos abnegados, do Alto, choram sobre os
abusos de liberdade dos romanos, a cidade dos Césares embriaga-se cada vez
mais no vinho do ódio e da ambição, contraindo dívidas penosas,
entrelaçando os seus sentimentos com o ódio dos vencidos e dos humilhados,
criando negras perspectivas para o longínquo futuro.
CULPAS E RESGATES DOLOROSOS DO HOMEM
ESPIRITUAL
Ao coração misericordioso de Jesus chegam as
preces dolorosas de todos os operários da sua bendita semeadura. Seu olhar
percuciente, todavia, penetrara o âmago das almas e não fora em vão que
recomendara o crescimento do trigo e do joio nas mesmas leiras, somente a
Ele competindo a separação, na época da ceifa.
A limitada liberdade de ação dos indivíduos
e das coletividades é integralmente respeitada. Cada qual é responsável
pelos seus atos, recebendo de conformidade com as suas obras.
Foi por isso que Roma teve oportunidade de
realizar seus propósitos e desígnios políticos; mas a Justiça Divina
acompanhou-lhe todos os passos, nos enormes desvios a que se conduziu,
comprometendo para sempre o futuro do homem espiritual, que somente agora
conhecerá um reajustamento nas amargurosas transições do século que passa.
Um laço pesado e tenebroso reuniu a cidade conquistadora aos povos que
humilhara. O ódio do verdugo e dos seus inimigos fundiu-se em séculos de
provações e de lutas expiatórias, para demonstrar que Jesus é o fundamento
da Verdade e só o amor é a sagrada finalidade da vida. Foi por essa razão
que o conquistador e os conquistados, unidos pelo ódio como calcetas
algemados um ao outro nas galés da amargura, compareceram periodicamente,
nos Espaços, ante a misericórdia suprema do Filho de Deus, prometendo a
reparação e o resgate recíprocos, nos séculos do porvir, fundando a
civilização ocidental, como abençoada oficina dos seus novos trabalhos no
esforço da fraternidade e da regeneração.
A bondade do Mestre fez florescer cidades
valorosas e progressistas, países cultos e fartos, onde as almas decaídas
encontrassem todos os elementos de edificação e aprimoramento. O homem
físico continuou a linha ascensional de sua evolução nas conquistas e
descobrimentos, mas o homem transcendente, a personalidade imortal, teria
saído do oceano de lodo onde se mergulhou, voluntariamente, há dois
milênios?
Respondam por nós as angustiosas
expectativas da hora presente.
OS MÁRTIRES
Antes do movimento de propagação das idéias
cristãs no seio da sociedade romana, já os prepostos de Jesus se
preparavam para auxiliar os missionários da nova fé, conhecendo a reação
dos patrícios em face dos postulados de fraternidade da nova doutrina.
As classes mais abastadas não podiam tolerar
semelhantes princípios de igualdade, quais os que preconizavam as lições
do Nazareno, considerados como postulados de covardia moral, incompatíveis
com a orgulhosa filosofia do Império, e é assim que vemos os cristãos
sofrendo os martírios da primeira perseguição, iniciada no reinado de
Nero, de tão dolorosas quão terríveis lembranças. Nenhum instrumento de
suplício foi esquecido na experimentação da fé e da constância daquelas
almas resignadas e heróicas. O açoite, a cruz, o cavalete, as unhas de
ferro, o fogo, os leões do circo, tudo foi lembrado para maior eficiência
da perseguição aos seguidores do Carpinteiro de Nazaré. Pedro e Paulo
entregam a vida na palma dos martírios santificadores e de Nero a
Diocleciano uma nuvem pesada, de sangue e de lágrimas, envolve a alma
cristã, cheia de confiança na Providência Divina. O próprio Marco Aurélio,
cuja elevada estatura espiritual recebera do Alto a missão de paralisar
semelhantes desatinos, não conseguiu deter a corrente de forças trevosas,
mas o sangue dos cristãos era a seiva da vida lançada às divinas sementes
do Cordeiro, e os seus sacrifícios foram bem os reflexos da amorosa
vibração do ensinamento do Cristo, atravessando os séculos da Terra para
ser compreendido e praticado nos milênios do porvir.
OS APOLOGISTAS
A doutrina cristã, todavia, encontrara nas
perseguições os seus melhores recursos de propaganda e de expansão.
Seus princípios generosos encontravam
guarida em todos os corações, seduzindo a consciência de todos os
estudiosos de alma livre e sincera. Observa-se-lhe a influência no segundo
século, em quase todos os departamentos da atividade intelectual, com
largos reflexos na legislação e nos costumes. Tertuliano apresenta a sua
apologia do Cristianismo, provocando admiração e respeito gerais. Clemente
de Alexandria e Orígenes surgem com a sua palavra autorizada, defendendo a
filosofia cristã, e com eles levanta-se um verdadeiro exército de vozes
que advogam a causa da verdade e da justiça, da redenção e do amor.
O JEJUM E A ORAÇÃO
Os cristãos, contudo, não tiveram de início
uma visão do campo de trabalho que se lhes apresentava. Não atinaram que,
se o jejum e a oração constituem uma grande virtude na soledade, mais
elevada virtude representam quando levados a efeito no torvelinho das
paixões desenfreadas, nas lutas regeneradoras, a fim de aproveitar aos que
os contemplam. Não compreenderam imediatamente que esses preceitos
evangélicos, acima de tudo, significam sacrifício pelo próximo,
perseverança no esforço redentor, serenidade no trabalho ativo, que
corrige e edifica simultaneamente. Retirando-se para a vida monástica,
povoaram os desertos na suposição de que se redimiriam mais rapidamente
para o Cordeiro.
Uma ânsia de fugir das cidades populosas
fazia então vibrar todos os crentes, originando os erros da idade
medieval, quando o homem supunha encontrar nos conventos as antecâmaras do
Céu.
O Oriente, com os seus desertos numerosos e
os seus lugares sagrados, afigura-se o caminho de todos quantos desejam
fugir dos antros das paixões. Só a grande montanha de Nítria chegou a
possuir trinta mil anacoretas, exilados do mundo e dos seus prazeres
desastrosos. Entretanto, examinando essa decisão desaconselhável dos
primeiros tempos, somos levados a recordar que os cristãos se haviam
esquecido de que Jesus não desejava a morte do pecador.
CONSTANTINO
As forças espirituais que acompanhavam e
acompanham todos os movimentos do orbe, sob a égide de Jesus, procuram
dispor os alicerces de novos acontecimentos, que devem preparar a
sociedade romana para o resgate e para a provação.
A invasão dos povos considerados bárbaros é
então entrevista.
Uma forte anarquia militar dificulta a
solução dos problemas de ordem coletiva, elevando e abatendo imperadores
de um dia para outro. Sentindo a aproximação de grandes sucessos e
antevendo a impossibilidade de manter a unidade imperial, Diocleciano
organiza a Tetrarquia, ou governo de quatro soberanos, com quatro grandes
capitais.
Retirando-se para Salona, exausto da tarefa
governativa, ocorre a rebelião militar que aclama Augusto a Constantino,
filho de Constâncio Cloro, contrariando as disposições dos dois Césares,
sucessores de Diocleciano e Maximiano. A luta se estabelece e Constantino
vence Maxêncio às portas de Roma, penetrando a cidade, vitorioso, para ser
recebido em triunfo. Junto dele, o Cristianismo ascende à tarefa do
Estado, com o edito de Milão.
O PAPADO
Desde a décima perseguição que o
Cristianismo era considerado em Roma como doutrina morta, mas os prepostos
do Mestre não descansavam, com o nobre fim de fazer valer os seus
generosos princípios. A fatalidade histórica reclamava a sua colaboração
nos gabinetes da política do mundo e, ainda uma vez, a indigência dos
homens não compreendeu a dádiva do plano espiritual, porque, logo depois
da vitória, os bispos romanos solicitavam prerrogativas injustas sobre os
seus humildes companheiros de episcopado. O mesmo espírito de ambição e de
imperialismo, que de longo tempo trabalhava o organismo do Império,
dominou igualmente a igreja de Roma, que se arvorou em suserana e censora
de todas as demais do planeta. Cooperando com o Estado, faz sentir a força
das suas determinações arbitrárias. Trezentos anos lutaram os mensageiros
do Cristo, procurando ampará-la no caminho do amor e da humildade, até que
a deixaram enveredar pelas estradas da sombra, para o esforço de salvação
e de experiência, e, tão logo a abandonaram ao penoso trabalho de
aperfeiçoar-se a si mesma, eis que o imperador Focas favorece a criação do
Papado, no ano de 607. A decisão imperial faculta aos bispos de Roma
prerrogativas e direitos até então jamais justificados. Entronizam-se,
mais uma vez, o orgulho e a ambição da cidade dos Césares. Em 610, Focas é
chamado ao mundo dos invisíveis, deixando no orbe a consolidação do
Papado. Dessa data em diante, ia começar um período de 1260 anos de
amarguras e violências para a civilização que se fundava.
Livro: A Caminho da
Luz Médium: Francisco Cândido Xavier Espírito: Emmanuel |