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A EDIFICAÇÃO CRISTÃ
Emmanuel
OS PRIMEIROS CRISTÃOS
Atingindo um período de nova compreensão
concernente aos mais graves problemas da vida, a sociedade da época sentia
de perto a insuficiência das escolas filosóficas conhecidas, no propósito
de solucionar as suas grandes questões. A idéia de uma justiça mais
perfeita para as classes oprimidas tornara-se assunto obsidente para as
massas anônimas e sofredoras.
Em virtude dos seus postulados sublimes de
fraternidade, a lição do Cristo representava o asilo de todos os
desesperados e de todos os tristes. As multidões dos aflitos pareciam
ouvir aquela misericordiosa exortação: - "Vinde a mim, vós todos que
sofreis e tendes fome de justiça e eu vos aliviarei" - e da cruz
chegava-lhes, ainda, o alento de uma esperança desconhecida.
A recordação dos exemplos do Mestre não se
restringia aos povos da Judéia, que lhe ouviram diretamente os ensinos
imorredouros. Numerosos centuriões e cidadãos romanos conheceram
pessoalmente os fatos culminantes das pregações do Salvador. Em toda a
Ásia Menor, na Grécia, na África e mesmo nas Gálias, como em Roma,
falava-se dEle, da sua filosofia nova que abraçava todos os infelizes,
cheia das claridades sacrossantas do reino de Deus e da sua justiça. Sua
doutrina de perdão e de amor trazia nova luz aos corações e os seus
seguidores destacavam-se do ambiente corrupto do tempo, pela pureza de
costumes e por uma conduta retilínea e exemplar.
A princípio, as autoridades do Império não
ligaram maior importância à doutrina nascente, mas os Apóstolos ensinavam
que, por Jesus - Cristo, não mais poderia haver diferença entre os livres
e os escravos, entre patrícios e plebeus, porque todos eram irmãos, filhos
do mesmo Deus. O patriciado não podia ver com bons olhos semelhantes
doutrinas. Os cristãos foram acusados de feiticeiros e heréticos,
iniciando-se o martirológio com os primeiros editos de proscrição. O
Estado não permitia outras associações independentes, além daquelas
consideradas como cooperativas funerárias e, aproveitando essa exceção, os
seguidores do Crucificado começaram os famosos movimentos das catacumbas.
A PROPAGAÇÃO DO CRISTIANISMO
Na Judéia cresce, então, o número dos
prosélitos da nova crença. O hino de esperanças da manjedoura e do
calvário espalha nas almas um suave e eterno perfume. É assim que os
Apóstolos, cuja tarefa o Cristo abençoara com a sua misericórdia, espalham
as claridades da Boa Nova por toda a parte, repartindo o pão milagroso da
fé com todos os famintos do coração.
A doutrina do Crucificado propaga-se com a
rapidez do relâmpago.
Fala-se dela, tanto em Roma como nas Gálias
e no norte da África.
Surgem os advogados e os detratores. Os
prosélitos mais eminentes buscam doutrinar, disseminando as idéias e
interpretações. As primeiras igrejas surgem ao pé de cada Apóstolo, ou de
cada discípulo mais destacado e estudioso.
A centralização e a unidade do Império
Romano facilitaram o deslocamento dos novos missionários, que podiam levar
a palavra de fé ao mais obscuro recanto do globo, sem as exigências e os
obstáculos das fronteiras.
Doutrina alguma alcançara no mundo
semelhante posição, em face da preferência das massas. É que o Divino
Mestre selara com exemplos as palavras de suas lições imorredouras.
Maior revolucionário de todas as épocas, não
empunhou outra arma além daquelas que significam amor e tolerância,
educação e aclaramento. Condenou todas as hipocrisias, insurgiu-se contra
todas as violências oficializadas, ensinando simultaneamente aos
discípulos o amor incondicional à ordem, ao trabalho e à paz construtiva.
É por essa razão que os Evangelhos constituem o livro da Humanidade, por
excelência. Sua simplicidade e singeleza transparecem na tradução de todas
as línguas da Terra, prendendo a alma dos homens entre as luzes do Céu, ao
encanto suave de suas narrativas.
A REDAÇÃO DOS TEXTOS DEFINITIVOS
Nesse tempo, quando a guerra formidável da
critica procurava minar o edifício imortal da nova doutrina, os
mensageiros do Cristo presidem à redação dos textos definitivos, com
vistas ao futuro, não somente junto aos Apóstolos e seus discípulos, mas
igualmente junto aos núcleos das tradições. Os cristãos mais destacados
trocam, entre si, cartas de alto valor doutrinário para as diversas
igrejas. São mensagens de fraternidade e de amor, que a posteridade muita
vez não pôde ou não quis compreender.
Muitas escolas literárias se formaram nos
últimos séculos, dentro da crítica histórica, para o estudo e elucidação
desses documentos. A palavra "apócrifo" generalizou-se como o espantalho
de todo o mundo. Histórias numerosas foram escritas. Hipóteses incontáveis
foram aventadas, mas os sábios materialistas, no estudo das idéias
religiosas, não puderam sentir que a intuição está acima da razão e, ainda
uma vez, falharam, em sua maioria, na exposição dos princípios e na
apresentação das grandes figuras do Cristianismo.
A grandeza da doutrina não reside na
circunstância de o Evangelho ser de Marcos ou de Mateus, de Lucas ou de
João; está na beleza imortal que se irradia de suas lições divinas,
atravessando as idades e atraindo os corações. Não há vantagem nas longas
discussões quanto à autenticidade de uma carta de Inácio de Antioquia ou
de Paulo de Tarso, quando o raciocínio absoluto não possui elementos para
a prova concludente e necessária. A opinião geral rodopiará em torno do
crítico mais eminente, segundo as convenções. Todavia, a autoridade
literária não poderá apresentar a equação matemática do assunto. É que,
portas a dentro do coração, só a essência deve prevalecer para as almas e,
em se tratando das conquistas sublimadas da fé, a intuição tem de marchar
à frente da razão, preludiando generosos e definitivos conhecimentos.
A MISSÃO DE PAULO
No trabalho de redação dos Evangelhos, que
constituem, sem dúvida, o portentoso alicerce do Cristianismo,
verificavam-se, nessa época, algumas dificuldades para que se lhes desse o
precioso caráter universalista.
Todos os Apóstolos do Mestre haviam saído do
teatro humilde de seus gloriosos ensinamentos; mas, se esses pescadores
valorosos eram elevados Espíritos em missão, precisamos considerar que
eles estavam muito longe da situação de espiritualidade do Mestre,
sofrendo as influências do meio a que foram conduzidos. Tão logo se
verificou o regresso do Cordeiro às regiões da Luz, a comunidade cristã,
de modo geral, começou a sofrer a influência do judaísmo, e quase todos os
núcleos organizados, da doutrina, pretenderam guardar feição
aristocrática, em face das novas igrejas e associações que se fundavam nos
mais diversos pontos do mundo.
É então que Jesus resolve chamar o espírito
luminoso e enérgico de Paulo de Tarso ao exercício do seu ministério. Essa
deliberação foi um acontecimento dos mais significativos na história do
Cristianismo. As ações e as epístolas de Paulo tornam-se poderoso elemento
de universalização da nova doutrina. De cidade em cidade, de igreja em
igreja, o convertido de Damasco, com o seu enorme prestígio, fala do
Mestre, inflamando os corações. A princípio, estabelece-se entre ele e os
demais Apóstolos uma penosa situação de incompreensibilidade, mas sua
influência providencial teve por fim evitar uma aristocracia
injustificável dentro da comunidade cristã, nos seus tempos inesquecíveis
de simplicidade e pureza.
O APOCALIPSE DE JOÃO
Alguns anos antes de terminar o primeiro
século, após o advento da nova doutrina, já as forças espirituais operam
uma análise da situação amargurosa do mundo, em face do porvir.
Sob a égide de Jesus, estabelecem novas
linhas de progresso para a civilização, assinalando os traços iniciais dos
países europeus dos tempos modernos. Roma já não representa, então, para o
plano invisível, senão um foco infeccioso que é preciso neutralizar ou
remover. Todas as dádivas do Alto haviam sido desprezadas pela cidade
imperial, transformada num vesúvio de paixões e de esgotamentos.
O Divino Mestre chama aos Espaços o Espírito
João, que ainda se encontrava preso nos liames da Terra, e o Apóstolo,
atônito e aflito, lê a linguagem simbólica do invisível.
Recomenda-lhe o Senhor que entregue os seus
conhecimentos ao planeta como advertência a todas as nações e a todos os
povos da Terra, e o velho Apóstolo de Patmos transmite aos seus discípulos
as advertências extraordinárias do Apocalipse.
Todos os fatos posteriores à existência de
João estão ali previstos. É verdade que freqüentemente a descrição
apostólica penetra o terreno mais obscuro; vê-se que a sua expressão
humana não pôde copiar fielmente a expressão divina das suas visões de
palpitante interesse para a história da Humanidade. As guerras, as nações
futuras, os tormentos porvindouros, o comercialismo, as lutas ideológicas
da civilização ocidental, estão ali pormenorizadamente entrevistos. E a
figura mais dolorosa, ali relacionada, que ainda hoje se oferece à visão
do mundo moderno, é bem aquela da igreja transviada de Roma, simbolizada
na besta vestida de púrpura e embriagada com o sangue dos santos.
IDENTIFICAÇÃO DA BESTA APOCALÍPTICA
Reza o Apocalipse que a besta poderia dizer
grandezas e blasfêmias por 42 meses, acrescentando que o seu número era o
666 (Apoc. XIII, 5 e 18). Examinando-se a importância dos símbolos naquela
época e seguindo o rumo certo das interpretações, podemos tomar cada mês
como sendo de 30 anos, em vez de 30 dias, obtendo, desse modo, um período
de 1260 anos comuns, justamente o período compreendido entre 610 e 1870,
da nossa era, quando o Papado se consolidava, após o seu surgimento, com o
imperador Focas, em 607, e o decreto da infalibilidade papal com Pio IX,
em 1870, que assinalou a decadência e a ausência de autoridade do
Vaticano, em face da evolução científica, filosófica e religiosa da
Humanidade.
Quanto ao número 666, sem nos referirmos às
interpretações com os números gregos, em seus valores, devemos recorrer
aos algarismos romanos, em sua significação, por serem mais divulgados e
conhecidos, explicando que é o Sumo-Pontífice da igreja romana quem usa os
títulos de "VICARIVS GENERALIS DEI IN TERRIS", "VICARIVS FILII DEI" e "DVX
CLERI" que significam "Vigário-Geral de Deus na Terra", "Vigário do Filho
de Deus" e "Príncipe do Clero". Bastará ao estudioso um pequeno jogo de
paciência, somando os algarismos romanos encontrados em cada titulo papal
a fim de encontrar a mesma equação de 666, em cada um deles.
Vê-se, pois, que o Apocalipse de João tem
singular importância para os destinos da Humanidade terrestre.
O ROTEIRO DE LUZ E DE AMOR
Mas, voltemos aos nossos propósitos,
cumprindo-nos reconhecer nos Evangelhos uma luz maravilhosa e divina, que
o escoar incessante dos séculos só tem podido avivar e reacender. É que
eles guardam a súmula de todos os compêndios de paz e de verdade para a
vida dos homens, constituindo o roteiro de luz e de amor, através do qual
todas as almas podem ascender às luminosas montanhas da sabedoria dos
Céus.
Livro: A Caminho da
Luz Médium: Francisco Cândido Xavier Espírito: Emmanuel |