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O IMPÉRIO ROMANO E
SEUS DESVIOS
Emmanuel
OS DESVIOS ROMANOS
Reportando-nos ainda às conquistas romanas,
antes da chegada do Senhor para as primeiras florações do Cristianismo,
devemos lembrar o esforço despendido pelas entidades espirituais, junto
das autoridades organizadoras e conservadoras da República, no sentido de
orientar-se a atividade geral para um grande movimento de fraternidade e
de união de todos os povos do planeta.
Os pensadores que hoje sonham a criação dos
Estados Unidos do Mundo, sem os movimentos odiosos das guerras
fratricidas, podem sondar os desígnios do plano invisível naquela época. A
Grécia havia perscrutado, na medida do possível, todos os problemas
transcendentes da vida. Nas suas lutas expiatórias, transferira as suas
experiências e conhecimentos para a família romana, então apta para as
grandes tarefas do Estado. À força de educação e de amor, poderia esta
última unificar as bandeiras do orbe, criando um novo roteiro à evolução
coletiva e estabelecendo as linhas paralelas do progresso físico e moral
da Humanidade terrestre. Todos os esforços foram despendidos, nesse
particular, pelos emissários do plano invisível, e a prova desse grandioso
projeto de trabalho unitário é que a obra do Império Romano foi das mais
primorosas, em matéria educativa, com vistas à organização das
nacionalidades modernas. O próprio instinto democrático da Inglaterra e da
França, bem como as suas elevadas obras de socialização, ainda representam
frutos da missão educativa do Império, no seio da Humanidade.
O caminho dos romanos ficou juncado de
sementes e de luzes para o porvir
A realidade, contudo, é que, se os
mensageiros do Cristo conseguiram a realização de muitos planos generosos,
no seio da comunidade de então, não podiam interferir na liberdade isolada
da grande maioria dos seus membros.
OS ABUSOS DA AUTORIDADE E DO PODER
Em breve, os abusos da autoridade e do poder
embriagavam a cidade valorosa. Toda a sede do governo parecia invadida por
uma avalancha de forças perversoras, das mais baixas esferas dos planos
invisíveis.
A família romana, cujo esplendor espiritual
conseguiu atravessar todas as eras, iluminando os agrupamentos da
atualidade, parecia atormentada pelos mais tenazes inimigos ocultos, que,
aos poucos, lhe minaram as bases mais sólidas, mergulhando-a na corrupção
e no extermínio de si mesma, dada a ausência de vigilância de suas
sentinelas mais avançadas. Denso nevoeiro obscurecia todas as
consciências, e a sociedade alegre e honesta, rica de sentimentos
enobrecedores, foi pasto de crimes humilhantes, de tragédias lúgubres e
miserandos assassínios. As classes abastadas aproveitavam a pletora de
poder instalando-se no carro da opressão, que deixava atrás de si um
rastro fumegante de revolta e de sangue. Os Gracos, filhos da veneranda
Cornélia, são quase que os derradeiros traços de uma época caracterizada
pela administração enérgica, mas equânime, cheia de honestidade, de
sabedoria e de justiça.
OS CHEFES DE ROMA
Depois de Caio, assassinado no Aventino,
embora se fizesse supor um suicídio, instala-se definitivamente um regime
de quase completa dissolução das grandes conquistas morais realizadas.
Sobe Mário ao poder, depois das vitórias
contra Jugurta e contra os germanos, que haviam, por sua vez, invadido o
território das Gálias. Mas os antagonismos sociais levam Sila ao poder,
travando-se lutas cruentas, como vésperas escuras de sangrentas
derrocadas. Em seguida, surgem Pompeu e a revolução de Catilina, muito
conseguindo a prudência de Cícero em favor da segurança da cidade.
Verifica-se, logo após, o primeiro triunvirato com a política maneirosa de
Caio Júlio César, que se alia a Pompeu e a Crasso para as supremas
obrigações do governo.
As citações históricas, todavia, desviariam
os objetivos do nosso esforço. Nossa intenção é mostrar que o determinismo
do mundo espiritual era o do amor, da solidariedade e do bem, mas os
próprios homens, na esfera relativa de suas liberdades, modificaram esse
determinismo superior, no curso incessante da civilização.
Os generais romanos podiam conquistar a
ferro e fogo, desviando-se dos objetivos mais sagrados dos seus deveres e
obrigações, levando os outros povos, pela força das armas, os liames que
somente deveriam utilizar com a sua cultura e experiência da vida; mas
seus atos originaram os mais amargos frutos de provação e sofrimento para
a Humanidade terrestre, e é por isso que, em sua quase totalidade,
entraram no plano espiritual seguidos de perto pelas suas numerosas
vítimas, entre as vozes desesperadas das mais acerbas acusações. Muitos
deles, decorridos decênios infindáveis de martírios expiatórios, podiam
ser vistos sem as suas armaduras elegantes, arrastando-se como vermes ao
longo das margens do Tibre, ou estendendo as mãos asquerosas, como
mendigos detestados do Esquilino.
O SÉCULO DE AUGUSTO
Terminados os triunviratos, eis que ia
cumprir-se a missão do Cristo, depois de instalados os primeiros Césares
do Império Romano.
A aproximação e a presença consoladora do
Divino Mestre no mundo era motivo para que todos os corações
experimentassem uma vida nova, ainda que ignorassem a fonte divina
daquelas vibrações confortadoras. Em vista disso, o governo de Augusto
decorreu em grande tranqüilidade para Roma e para o resto das sociedades
organizadas do planeta. Realizam-se gigantescos esforços edificadores ou
reconstrutivos. Belos monumentos são erigidos. O espírito artístico e
filantrópico de Atenas revive na pessoa de Mecenas, confidente do
imperador, cuja generosidade dispensa a mais carinhosa atenção às
inteligências estudiosas e superiores da época, quais Horácio e Vergílio,
que assinalam, junto de outras nobres expressões intelectuais do tempo, a
passagem do chamado "século de Augusto", com as suas obras numerosas.
TRANSIÇÃO DE UMA ÉPOCA
Depois de Augusto, aparece à barra da
História a personalidade disfarçada e cruel de Tibério, seu filho adotivo,
que vê terminar a era de paz, de trabalho e concórdia, com o regresso do
Cordeiro às regiões sublimadas da Luz.
É nesse reinado que a Judéia leva a efeito a
tragédia do Gólgota, realizando sinistramente as mais remotas profecias.
Não obstante o seu compassivo e desvelado
amor, o Divino Mestre é submetido aos martírios da cruz, por imposição do
judaísmo, que lhe não compreendeu o amor e a humildade. Roma colabora no
doloroso acontecimento com a indiferença fria de Pôncio Pilatos,
retornando aos seus festins e aos seus prazeres, como se desconhecesse as
finalidades mais nobres da vida.
Seguindo a mesma estrada escura de Tibério,
Calígula inaugura um do longo de sombras, de massacres e de incêndios, de
devastação e de sangue.
PROVAÇÕES COLETIVAS DOS JUDEUS E DOS
ROMANOS
Os seguidores humildes do Nazareno iniciam,
nas regiões da Palestina, as suas predicações e ensinamentos. Raros
apóstolos sabiam da missão sublimada daquela doutrina sacrossanta, que
mandava fazer o bem pelo mal e instituía o perdão aos próprios inimigos.
De perto, seguem-lhes a atividade os emissários solícitos do Senhor,
preparando os caminhos da revolução ideológica do Evangelho. Esses
mensageiros do Alto iniciam, igualmente e de modo indireto, o esforço de
auxílio ao Império nas suas dolorosas provações coletivas.
Um perfeito trabalho de seleção se verifica
no ambiente espiritual das coletividades romanas. Chovem inspirações do
Alto preludiando as dores de Jerusalém e as amarguras da cidade imperial.
Vaticínios sinistros pesam sobre todos os espíritos rebeldes e culpados, e
a verdade é que, depois do cerco de Jerusalém, quando Tito destruiu a
cidade, arrasando-lhe o Templo famoso e dispersando para sempre os
israelitas, viu o orgulhoso vencedor mudar-se o curso das dores para a
sociedade do Império, atormentada pelas tempestades de fogo e cinza que
arrasaram Estábias, Herculânum e Pompéia, destruindo milhares de vidas
florescentes e desequilibrando a existência romana para sempre.
FIM DA VAIDADE HUMANA
O Império Romano, que poderia ter levado a
efeito a fundação de um único Estado na superfície do mundo, em virtude da
maravilhosa unidade a que chegou e mercê do esforço e da proteção do Alto,
desapareceu num mar de ruínas, depois das suas guerras, desvios e circos
cheios de feras e gladiadores.
O imenso organismo apodreceu nas chagas que
lhe abriram a incúria e a impiedade dos próprios filhos e, quando não foi
mais possível o paliativo da misericórdia dos espíritos abnegados e
compassivos, dada a galvanização dos sentimentos gerais na mesa larga dos
excessos e prazeres terrestres, a dor foi chamada a restabelecer o
fundamento da verdade nas almas.
Da orgulhosa cidade dos imperadores não
restaram senão pedras sobre pedras. Sob o látego da expiação e do
sofrimento, os Espíritos culpados trocaram a sua indumentária para a
evolução e para o resgate no cenário infinito da vida, e, enquanto muitos
deles ainda choram nos padecimentos redentores, gemem sobre as ruínas do
Coliseu de Vespasiano os ventos tristes e lamentosos da noite.
Livro: A Caminho da
Luz Médium: Francisco Cândido Xavier Espírito: Emmanuel |