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A GRÉCIA E A
MISSÃO DE SÓCRATES
Emmanuel
NAS VÉSPERAS DA MAIORIDADE TERRESTRE
Examinando a maioridade espiritual das
criaturas humanas, enviou-lhes o Cristo, antes de sua vinda ao mundo,
numerosa coorte de Espíritos sábios e benevolentes, aptos a consolidar, de
modo definitivo, essa maturação do pensamento terrestre.
As cidades populosas do globo enchem-se,
então, de homens cultos e generosos, de filósofos e de artistas, que
renovam, para melhor, todas as tendências da Humanidade.
Grandes mestres do cérebro e do coração
formam escolas numerosas na Grécia, que assumia a direção intelectual do
orbe inteiro. A maioria desses pensadores, que eram os enviados do Cristo
às coletividades terrestres, trazem, do círculo retraído e isolado dos
templos, os ensinamentos dos grandes iniciados para as praças públicas,
pregando a verdade às multidões.
Assim como a organização do homem físico
exigira as mais amplas experiências da natureza, antes de se fixarem os
seus caracteres biológicos definitivos, a lição de Jesus, que representa o
roteiro seguro para a edificação do homem espiritual, deveria ser
precedida pelas experiências mais vastas no campo social.
É por essa razão que observamos, nos cinco
séculos anteriores à vinda do Cordeiro, uma aglomeração de inúmeras
escolas políticas, religiosas e filosóficas dos mais diversos matizes, em
todos os ambientes do mundo.
ATENAS E ESPARTA
Muitas teorias científicas, que provocam o
sensacionalismo dos vossos dias como inovações ultramodernas, foram
conhecidas da Grécia, m cujos mestres têm os seus legítimos fundamentos.
Em matéria de doutrinas sociais, grandes
ensaios foram realizados, divulgando-se a mais farta colheita de
ensinamentos; e quando meditamos no conflito moderno entre os Estados
totalitários, fascistas ou comunistas e as repúblicas democráticas,
devemos volver os olhos ao passado, revendo Atenas e Esparta como dois
símbolos políticos que nos fazem pensar na plena atualidade da Grécia
antiga.
Os espartanos, sob o regime atribuído a
Licurgo, nome que constitui apenas uma representação simbólica dos
generais da época, vivendo a existência absoluta do Estado, não
expressaram a mesma fisionomia da Alemanha e da Rússia atuais? A
legislação de Esparta proibia o comércio, condenava a cultura; cerceando o
gosto pessoal em face das bagatelas encantadoras da vida e do sentimento,
decretou medidas de insulamento, maltratando os estrangeiros; instituiu a
uniformidade dos vestuários, incumbiu-se da educação das crianças através
dos órgãos do Estado, mas não cultivava a parte intelectual, abalando todo
o edifício sagrado da família e criando, muitas vezes, o regime do roubo e
da delação, em detrimento das mais nobres finalidades da vida.
Por essa razão, Esparta passou à história
como um simples povo de soldados espalhando a destruição e os flagelos da
guerra, sem nenhuma significação construtiva para a Humanidade.
Atenas, ao contrário, é o berço da
verdadeira democracia. Povo que amou profundamente a liberdade, sua
dedicação à cultura e às artes iniciou as outras nações no culto da vida,
da criação e da beleza. Seus legisladores, que, como Sólon, eram filósofos
e poetas, reformaram todos os sistemas sociais conhecidos até então,
protegendo as classes pobres e desvalidas, estabelecendo uma linha
harmônica entre todos os departamentos da sociedade, acolhendo os
estrangeiros, protegendo o trabalho, fomentando o comércio, as indústrias,
a agricultura.
Lá começou o verdadeiro regime de consulta à
vontade do povo, que decidia, em assembléias numerosas, todos os problemas
da cidade venerável. E é fácil reconhecer aí o início das democracias
modernas, que agora se organizam, nas transições do século XX, para a
repressão de todas as doutrinas nefastas da força e da violência.
EXPERIÊNCIAS NECESSÁRIAS
Semelhantes experiências, no campo
sociológico, foram incentivadas e acompanhadas de perto pelos prepostos de
Jesus, respeitadas as grandes leis da liberdade individual e coletiva.
O mundo precisava conhecer a boa e a má
semente, nas grandes transformações da sua existência. A exemplificação do
Cristo necessitava de elevada compreensão no seio da cultura e da
experiência de todos os séculos transcorridos e, sem embargo das lutas
renovadoras que a antecederam no orbe, há dois milênios que o Evangelho do
Mestre espera a floração do perfeito entendimento dos homens.
A GRÉCIA
Ao influxo do coração misericordioso do
Cristo, toda a Grécia se povoa de artistas e pensadores eminentes, no
quadro das filosofias e das ciências. É lá que vamos encontrar as escolas
Itálica e Eleática, à frente do fervoroso idealismo de Pitágoras e
Xenófanes, sem esquecermos, igualmente, as escolas Jônica e Ato mística
com Tales e Demócrito, nas expressões do mais avançado materialismo.
O século de Péricles, chegando a um apogeu
de beleza e de cultura com os elevados princípios recebidos da civilização
egípcia, espalha os mais soberbos clarões espirituais nos horizontes da
Terra. Poucas fases da evolução européia se aproximaram desse século
maravilhoso.
O Salvador contempla, das Alturas, essa
época de elevadas conquistas morais, cheio de amor e de esperança. O
planeta terrestre aproximava-se da sua maioridade espiritual quando,
então, poderia Ele nutrir o coração humano com a sementeira bendita da sua
palavra. Envia, então, às sociedades do globo o esforço de auxiliares
valorosos, nas figuras de Ésquilo, Eurípedes, Heródoto e Tucídides, e por
fim a extraordinária personalidade de Sócrates, no intuito de realizar o
coroamento do esforço decidido de tantos mensageiros.
SÓCRATES
É por isso que, de todas as grandes figuras
daqueles tempos longínquos, somos compelidos a destacar a grandiosa figura
de Sócrates, na Atenas antiga.
Superior a Anaxágoras, seu mestre, como
também imperfeitamente interpretado pelos seus três discípulos mais
famosos, o grande filósofo está aureolado pelas mais divinas claridades
espirituais, no curso de todos os séculos planetários. Sua existência, em
algumas circunstâncias, aproxima-se da exemplificação do próprio Cristo.
Sua palavra confunde todos os espíritos mesquinhos da época e faz
desabrochar florações novas de sentimento e cultura na alma sedenta da
mocidade. Nas praças públicas, ensina à infância e à juventude o formoso
ideal da fraternidade e da prática do bem, lançando as sementes generosas
da solidariedade dos pósteros.
Mas Atenas, como cérebro do mundo de então,
apesar do seu vasto progresso, não consegue suportar a lição avançada do
grande mensageiro de Jesus.
Sócrates é acusado de perverter os jovens
atenienses, instilando-lhes o veneno da liberdade nos corações.
Preso e humilhado, seu espírito generoso não
se acovarda diante das provas rudes que lhe extravasam do cálice de
amarguras. Consciente da missão que trazia, recusa fugir do próprio
cárcere, cujas portas se lhe abrem às ocultas pela generosidade de alguns
juízes.
Os enviados do plano invisível cercam-lhe o
coração magnânimo e esclarecido, nas horas mais ásperas e agudas da
provação; e quando a esposa, Xantipa, assoma às grades da prisão para
comunicar-lhe a nefanda condenação à morte pela cicuta, ei-la exclamando
no auge da angústia e desesperação:
- "Sócrates, Sócrates, os juizes te
condenaram à morte..."
- "Que tem isso? - responde resignadamente o
filósofo – eles também estão condenados pela Natureza."
- "Mas essa condenação é injusta..." -
soluça ainda a desolada esposa.
E ele a esclarece com um olhar de paciência
e de carinho:
- "E quererias que ela fosse justa?"
Senhor do seu valoroso e resignado heroísmo,
Sócrates abandona a Terra, alçando-se de novo aos páramos constelados,
onde o aguardava a bênção de Jesus.
OS DISCÍPULOS
O grande filosofo que ensinara à Grécia as
mais belas virtudes, como precursor dos princípios cristãos, deixou vários
discípulos, dos quais se destacaram Antístenes, Xenofonte e Platão.
Falaremos, apenas, deste último, para esclarecer que nenhum deles soube
assimilar perfeitamente a estrutura moral do mestre inesquecível. A
História louva os discursos de Platão, mas nem sempre compreendeu que ele
misturou a filosofia pura do mestre com a ganga das paixões terrestres,
enveredando algumas vezes por complicados caminhos políticos. Não soube,
como também muitos dos seus companheiros, conservar-se ao nível de alta
superioridade espiritual, chegando mesmo a justificar o direito tirânico
dos senhores sobre os escravos, sem uma visão ampla da fraternidade humana
e da família universal.
Contudo, não deixou de cultivar alguns dos
princípios cristãos legados pelo grande mentor, antecipando-se ao
apostolado do Evangelho, antes de entregar a sua tarefa doutrinária a
Aristóteles, que ia também trabalhar pelo advento do Cristianismo.
PROVAÇÃO COLETIVA DA GRÉCIA
A condenação de Sócrates foi uma dessas
causas transcendentes de dolorosas e amargas provações coletivas, para
todos os espíritos que participaram dela, na medida justa das
responsabilidades pessoais entre si.
E é em razão disso que, mais tarde, vemos o
povo nobre e culto de Atenas fornecendo escravos valorosos e sábios aos
espíritos agressivos e enérgicos de Roma. Eles iam nas galeras suntuosas,
humilhados e oprimidos, sem embargo das suas elevadas noções da vida, do
amor, da liberdade e da justiça.
É verdade que iam instaurar um novo período
de progresso espiritual para as coletividades romanas, com os seus
luminosos ensinamentos, mas o processo evolutivo poderia ladear outros
caminhos, longe do morticínio e da escravidão. Todavia, sobre a fronte de
muitos gregos ilustres, pairava o sanguinolento labéu daquela injusta
condenação, labéu ignominioso que a Grécia deveria lavar com as lágrimas
dolorosas da compunção e do cativeiro.
Livro: A Caminho da
Luz Médium: Francisco Cândido Xavier Espírito: Emmanuel |