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A CHINA MILENÁRIA
Emmanuel
A CHINA
Depois de nossas divagações a respeito da
raça branca, que se constituía dos antigos árias no ambiente da Terra, é
cabível examinarmos a árvore mais antiga das civilizações terrestres, a
fim de observarmos a assistência carinhosa e constante do Divino Mestre
para com todas as criaturas de Deus.
Inegavelmente, o mais prístino foco de todos
os surtos evolutivos do globo é a China milenária, com o seu espírito
valoroso e resignado, mas sem rumo certo nas estradas da edificação geral.
Quando se verificou o advento das almas
proscritas do sistema da Capela, em épocas remotíssimas, já a existência
chinesa contava com uma organização regular, oferecendo os tipos mais
homogêneos e mais selecionados do planeta, em face dos remanescentes
humanos primitivos. Suas tradições já andavam de geração em geração,
construindo as obras do porvir. Daí se infere que, de fato, a história da
China remonta a épocas remotíssimas, no seu passado multimilenário, e esse
povo, que deixa agora entrever uma certa estagnação nos seus valores
evolutivos, sempre foi igualmente acompanhado na sua marcha por aquela
misericórdia infinita que, do Céu, envolve todos os corações que latejam
na Terra.
A CRISTALIZAÇÃO DAS IDÉIAS CHINESAS
A cristalização das idéias chinesas advém,
simplesmente, desse insulamento voluntário que prejudicou, nas mesmas
circunstâncias, o espírito da Índia, apesar da fascinante beleza das suas
tradições e dos seus ensinos.
É que a civilização e o progresso, como a
própria vida, dependem das trocas incessantes. O Universo, na sua
constituição maravilhosa, não criou nem sanciona leis de isolamento na
comunidade eterna dos mundos e dos seres. A existência é uma longa escada,
na qual todas as almas devem dar-se as mãos, na subida para o conhecimento
e para Deus. Enquanto a família indo-européia pervagava no desconhecido,
assimilando as expressões das tribos encontra das - em longas iniciativas
de construção e trabalho -, os arianos da Índia estacionaram no repouso de
suas tradições, desenvolvendo-se, no curso do tempo, as mais prestigiosas
lições de experiência para a alma dos povos. E agora, quando os israelitas
são chamados por forças poderosas ao deslocamento no seio das nações, a
fim de aprenderem mais intimamente a doce lição da fraternidade e do amor
universal, renovando a fibra da sua fé a caminho da perfeita compreensão
do Cristo, a China é também convocada, pelas transformações do século, à
grande lição do entrelaçamento da comunidade planetária, a fim de ensinar
as suas virtudes e aprender as virtudes dos outros povos.
Foi pela sua obstinada resistência que a
idéia chinesa estagnou-se na marcha do tempo, embora, nestas
despretensiosas observações, sejamos dos primeiros a reconhecer a grandeza
de suas elevadas expressões espirituais.
FO-HI
Jesus, na sua proteção e na sua
misericórdia, desde os tempos mais distantes enviou missionários àqueles
agrupamentos de criaturas que se organizavam, econômica e politicamente,
entre as coletividades primárias da Terra.
As raças adâmicas ainda não haviam chegado
ao orbe terrestre e entre aqueles povos já se ouviam grandes ensinamentos
do plano espiritual, de sumo interesse para a direção e solução de todos
os problemas da vida.
A História não vos fala de outros, antes do
grande Fo-Hi, que foi o compilador de suas ciências religiosas, nos seus
trigramas duplos, que passaram do pretérito remotíssimo aos estudos da
posteridade.
Fo-Hi refere-se, no seu "Y-King", aos
grandes sábios que o antecederam no penoso caminho das aquisições de
conhecimento espiritual. Seus símbolos representam os característicos de
uma ciência altamente evolutiva, revelando ensinamentos de grande pureza e
da mais avançada metafísica.
Em seguida a esse grande missionário do povo
chinês, o Divino Mestre envia-lhe a palavra de Confúcio ou Kong-Fo-Tsé,
cinco séculos antes da sua vinda, preparando os caminhos do Evangelho no
mundo, tal como procedera com a Grécia, Roma e outros centros adiantados
do planeta, enviando-lhes elevados Espíritos da ciência, da religião e da
filosofia, algum tempo antes da sua palavra mirífica, a fim de que a
Humanidade estivesse preparada para a aceitação dos seus ensinos.
CONFÚCIO E LAO-TSÉ
Confúcio, na qualidade de missionário do
Cristo, teve de saturar-se de todas as tradições chinesas, aceitar as
circunstâncias imperiosas do meio, de modo a beneficiar o país na medida
de suas possibilidades de compreensão. Ele faz ressurgir os ensinamentos
de Lao-Tsé, que fora, por sua vez, um elevado mensageiro do Senhor para as
raças amarelas. Suas lições estão cheias do perfume de requintada
sabedoria moral. No "Kan-Ing", de Lao-Tsé, eis algumas de suas afirmações
que nada ficam a dever aos vossos conhecimentos e exposições do moderno
pensamento religioso: - "O Senhor dos Céus é bom e generoso, e o homem
sábio é um pouco de suas manifestações. Na estrada da inspiração, eles
caminham juntos e o sábio lhe recebe as idéias, que enchem a vida de
alegria e de bens."
Lao-Tsé, de cujos ensinamentos Confúcio fez
questão de formar a base dos seus princípios, viveu seis séculos antes do
advento do Senhor, e, em face dessa filosofia religiosa, avançada e
superior, somos obrigados a reconhecer a prodigalidade da misericórdia de
Jesus, enviando os seus porta-vozes a todos os pontos da Terra, com o
objetivo de fazer desabrochar no espírito das massas a melhor compreensão
do seu Evangelho de Verdade e de Amor, que o mundo, entretanto, ainda não
compreendeu, não obstante todos os seus sacrifícios.
O NIRVANA
Para fundamentar devidamente a nossa opinião
relativa à estagnação do espírito chinês, examinemos ainda as suas
interessantes e elevadas concepções religiosas.
De um modo geral, é o culto dos antepassados
o principio da sua fé. Esse culto, cotidiano e perseverante, é a base da
crença na imortalidade, porquanto de suas manifestações ressaltam as
provas diárias da sobrevivência. As relações com o plano invisível
constituem um fenômeno comum, associado à existência do indivíduo mais
obscuro. A idéia da necessidade de aperfeiçoamento espiritual é latente em
todos os corações, mas o desvio inerente à compreensão do Nirvana é aí,
como em numerosas correntes do budismo, um obstáculo ao progresso geral.
O Nirvana, examinado em suas expressões mais
profundas, deve ser considerado como a união permanente da alma com Deus,
finalidade de todos os caminhos evolutivos; nunca, porém, como sinônimo de
imperturbável quietude ou beatífica realização do não ser. A vida é a
harmonia dos movimentos, resultante das trocas incessantes no seio da
natureza visível e invisível. Sua manutenção depende da atividade de todos
os mundos e de todos os seres. Cada individualidade, na prova, como na
redenção, como na glória divina, tem uma função definida de trabalho e
elevação dos seus próprios valores. Os que aprenderam os bens da vida e
quantos os ensinam com amor, multiplicam na Terra e nos Céus os dons
infinitos de Deus.
A CHINA ATUAL
A falsa interpretação do Nirvana disturbou
as elevadas possibilidades criadoras do espírito chinês, cristalizou-lhe
as concepções e paralisou-lhe a marcha para as grandes conquistas.
É certo que essas conquistas não consistem
nas metralhadoras e nas bombardas da civilização do Ocidente, cheia de
comodidades multifárias, mas aqui me refiro à incompreensão geral acerca
da lição sublime do Cristo e dos seus enviados.
A China, como os outros povos do mundo, tem
de esmar neste século os valores obtidos na sua caminhada longa e penosa
Destas palavras, não há inferir que a invasão japonesa, na sua incrível
agressividade, esteja tocada de uma sanção divina. O Japão poderá
realizar, na grande república, todas as conquistas materiais; usando a
psicologia dos conquistadores, poderá melhorar as condições sanitárias do
povo, rasgar estradas e multiplicar escolas; mas não amortecerá a energia
perseverante do espírito chinês, valoroso e resignado, que poderá até
ceder-lhe as próprias rédeas do governo, enchendo-o de fortuna, de
suntuosidade e de honrarias, sem desprestígio do seu próprio valor,
porquanto a China milenária sabe que os espíritos de rapina embriagam-se
facilmente com o vinho de sangue do triunfo, e tão logo o luxo lhes
amoleça as fibras da desesperação, todas as vitórias voltam,
automaticamente, à reflexão, ao raciocínio, à cultura e à inteligência.
O que se faz necessário examinar é o estado
de estagnação da alma chinesa nestes últimos séculos, para concluirmos
pela sua necessidade imperiosa de comungar no banquete de fraternidade dos
outros povos.
A EDIFICAÇÃO DO EVANGELHO
É verdade que a palavra direta do Cristo,
consubstanciada no seu Evangelho, ainda não chegou até lá de um modo
geral, aclarando o caminho de todos os corações, mas um sopro de vida
romperá as sombras milenárias que caíram sobre a república chinesa, onde
milhões de almas repousam, indevidamente, na falsa compreensão do Nirvana
e do Absoluto. Mãos valorosas erguerão o monumento evangélico naquele
mundo de dolorosas antiguidades, e um novo dia raiará para a grande nação
que se tornou em símbolo de paciência e de perseverança, para os outros
povos.
Esperemos a providência dAquele que guarda
em suas mãos augustas e misericordiosas a direção do mundo.
"Bem-aventurados os pacíficos, os aflitos,
os humildes."
E as suas palavras mansas e carinhosas nos
fazem lembrar a China milenária, que, amando a paz, sofre agora o insulto
das forças tenebrosas da ambição, da injustiça e da iniqüidade.
Livro: A Caminho da
Luz Médium: Francisco Cândido Xavier Espírito: Emmanuel |