Do outro lado do espelho
O
texto a seguir refere-se a um diálogo ocorrido na dimensão espiritual
entre os espíritos dr. Inácio Ferreira e Padre Sebastião
Carmelita, seu único amigo sacerdote desde os tempos do Sanatório
Espírita de Uberaba.
A conversa precede ao inicio do penoso resgate
do espírito de Tomás Torquemada, prisioneiro em região espiritual
inferior, por se encontrar esgotado em perseverar no mal por quase meio milênio.
Como o mal não possui forças de auto-sustentação
porque somente o Bem possui, uma vez que vem de Deus. O temível inquisidor
geral da Espanha do século XV começava a redirecionar sua sintonia
para a Luz, o que para seus comparsas passou a representar covardia e traição,
razão pela qual o escravizavam e o mantinham como troféu de ameaça
aos que ousassem imitá-lo.
No presente diálogo, o padre Carmelita,
muito lúcido, comenta as táticas das inteligências refratárias
à evolução em impedir o despertamento da consciência
espiritual do Homem, através da disseminação de filosofias
irracionais e das contradições religiosas.
Tomando
a palavra, Sebastião Carmelita esclareceu:
-
Os nossos irmãos que deliberaram viver nas regiões espirituais inferiores
possuem uma organização semelhante à nossa: consideram-se
os proprietários da terra e os donos da situação, opondo-se
ao Governo Divino... Os seus líderes são antigos membros da Igreja
Católica que esperavam alcançar, depois da morte, o Céu a
que julgaram fazer jus. Sem dúvida, um dos maiores entraves à evolução
do espírito foi a crença na absolvição dos pecados,
mediante a simples prática da confissão auricular; crendo-nos limpos
de todos os equívocos e mazelas, apenas por expressá-las verbalmente
aos ouvidos de uma criatura tão falha quanto nós que, não
raro, no confessionário, nos escutava entre o fastio e o tédio,
julgávamo-nos dispensados da renovação interior, sem a qual
ninguém realizará o Reino de Deus em si... A confissão era
uma espécie de anestésico para a consciência, que dele poderia
se valer, sempre que se visse constrangida pelo arrependimento... A penitência,
prescrita pelos sacerdotes, não impunha a necessidade de se reparar o mal;
com doações vultosas à Igreja, os pecados mais graves poderiam
ser esquecidos pela Lei... Decepcionados com a verdade que encontraram no Além,
que voluntariamente ignoraram, em seu estranho jogo de interesses, amotinaram-se
contra ela, opondo-se terminantemente a toda e qualquer reparação.
Defendem, às últimas conseqüências, os princípios
que esposam. Crêem na existência do Cristo, mas o consideram inacessível;
para eles, o Senhor é uma espécie de sonho inatingível para
a Humanidade, um modelo perfeito demais para ser seguido... Se se mantivessem
ilhados em seus propósitos, sem molestarem a ninguém, respeitando-lhes
o livre arbítrio, não nos restaria alternativa senão a deixa-los
entregues às próprias concepções; o problema é
que as suas falanges têm procurado fazer adeptos, criando situação
para os homens que lhes comprometem a evolução... O seu campo de
trabalho é a Terra, sobre a qual estudam os anseios de expansão
de seu império. Olvidam a ascese espiritual, bloqueando as passagens para
o Alto, mas operam no mundo, transfigurados em obsessores e, coisa curiosa, a
sua estratégia de domínio está concentrada na religião:
pouco se importam com as outras áreas do conhecimento humano. Invadindo,
feito o joio, que se alastra no meio do trigo, os templos consagrados à
fé, independentemente da crença religiosa, desfiguram os ensinamentos
do Cristo e manipulam os seus pastores. Sabem que o escândalo moral dissemina
a descrença e, por este motivo, induzem os religiosos a se contradizerem...
Não se preocupam tanto com os chamados freqüentadores das casas de
fé; de preferência, concentram esforços sobre os que ocupam
a tribuna e sobre os que são chamados pela posição que ocupam
na comunidade a maiores testemunhos na exemplificação e na coerência.
Chegam ao extremo de cooperarem com a subida de determinado líder religioso,
para, em seguida, caprichosamente, promover-lhe a queda...
Acompanhando
o raciocínio de Carmelita, quebrei o protocolo e perguntei em meio à
sua fala:
-
Agem também assim contra os espíritas?
-
Como não, Inácio?! Para eles, na atualidade, o Espiritismo, que
se propõe reviver o Cristianismo em sua pureza original, se constitui de
maior ameaça, principalmente porque a filosofia espírita lhes identificou
a intenção, ou seja: estudando à saciedade o problema da
obsessão, suas técnicas e causas, bem como os métodos para
se combater com eficiência, Allan Kardec ergueu o pano sob o qual se ocultavam
nos bastidores... No entanto, a sua estratégia sobre os espíritas
tem se refinado: evitam o confronto face a face, agindo de maneira discreta e
sutil... A distância, trabalham na constante emissão de pensamentos,
fragilizando, aos poucos, a resistência moral e intelectual dos nossos companheiros
de ideal que ainda mourejam na carne...
Após
efetuar pequena pausa em sua alocução, Carmelita continuou:
-
Não fosse pela determinação e pela coragem de alguns poucos
adeptos do Espiritismo, a Doutrina não caminharia. Graças aos que
são rotulados de fanáticos, os que ousam ir um pouco além
do habitual, é que o ideal espírita respira e sobrevive no mundo!
Quanto a isso, não tenham a menor dúvida. Se não contássemos
com os que, inclusive, se prejudicam profissionalmente e, por vezes, sacrificam
mesmo a tranqüilidade da própria vida familiar, a Fé Raciocinada
não fermentaria e não seria o pão com que se tem apresentado
à fome de consolo e de esclarecimento da multidão faminta. O determinismo
no trabalho do bem cria uma espécie de couraça contra o assédio
das entidades infelizes que procuram manobrar o ânimo de quantos se revelam
bem intencionados.
-
Mas o que acontece, se não os atingem diretamente? - insisti, não
contendo o anseio de um pouco mais saber.
-
É o que você mesmo, Inácio, se cansou de dizer em seus escritos
e de ver no cotidiano do Sanatório: procuram alcançá-los
através dos familiares aos quais devotam particular afeto... Obsessão
indireta seria o termo correto. Desferem impiedosos ataques contra os filhos dos
médiuns; contra os cônjuges dos companheiros firmes na Doutrina,
levando-os à infidelidade conjugal ou à intolerância; contra
a situação socioeconômica do grupo doméstico, fazendo
coincidir a promissora adesão ao Espiritismo de um dos seus membros com
as dificuldades que faceiam... A imaginação para o mal é
fertilíssima. A gleba que o Senhor tem procurado lavrar, por enquanto,
é mais propícia à erva daninha do que ao bom grão!
Como
se desejasse sintetizar, para que o assunto inicial de seu diálogo conosco
fosse retomado, Carmelita esclareceu:
-
A obsessão envolve um planejamento meticuloso; não estamos nos referindo
àquela obsessão de caráter particular, mas, sim, àquela
que interessa à cúpula das Trevas... Os médiuns sem consciência
de que o são existem em toda parte. Elementos da família, mediunizados
sem que disto suspeitem, recriminam os confrades que se devotam à Causa,
rotulando-os de indiferentes e omissos para com o que acontece dentro de casa...
Sem dúvida, limites carecem ser estabelecidos, e o bom-senso deve nos nortear
em toda e qualquer atitude. Não podemos relegar ao esquecimento os nossos
deveres primordiais, todavia, a pretexto disto, não podemos fugir ao compromisso
que extrapola as obrigações pertinentes a qualquer um que viva em
regime de interdependência. A inquirição de Jesus aos seus
Apóstolos ainda hoje ecoa, sem resposta, na acústica de nossas consciências:
"Que fazeis de especial?" Ninguém está no mundo para servir
com exclusividade a si ou àqueles que se lhe fazem objeto de afeição
imediatista.
As
mentes que inspiram a luta contra a idéia de Deus no Universo não
acreditam na existência do Criador, apregoando, inclusive, que toda fé
religiosa se constitui em entrave à liberdade; querem a vida sem a presença
de Deus e o homem vivendo em estado de liberdade natural, com menos razão
e mais instinto.
-
É uma filosofia tentadora - asseverei - porquanto a tese da evolução,
que a Doutrina Espírita difunde, é, para estes, uma canseira; reencarnar
indefinidamente...
-
Fazem o marketing de um produto que atende os interesses imediatos da criatura
encarnada, não é, Inácio?
-
Não apenas da criatura encarnada...
-
E veja que estamos em plena realidade espiritual, com perfeito conhecimento de
causa. O que não sobra para os nossos irmãos imersos nas ilusões
da matéria?...
-
Se não fosse por Cristo Jesus...
-
Por este motivo, as Trevas não cessam de combatê-lo através
daqueles que a servem no mundo.
Texto
parte do livro DO OUTRO LADO DO ESPELHO.
Decidimos manter este
trecho do livro, em homenagem e respeito às lagrimas e duras lutas a que
o médium se impôs, o que tristemente não o salvou nem da "caridade
dos espíritas".
Minha gratidão a ele e seus mentores.
Que
Jesus lhes dê forças para humildemente entregar essa mensagem à
humanidade.
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