Espírita,
de corpo e alma.
Quando
decidimos viver a Doutrina Espírita, vamo-nos aprofundando em suas dimensões
sutis que só a alma sensível vai percebendo em seu próprio
universo interior. Abrangendo áreas até então jamais vistas
ou sonhadas. Suas emoções adquirem nuances até então
nunca percebidos pelos seus sentidos rústicos. Todo o ser se torna algo
novo. Reorganiza sua vidinha que até então era sem sentidos mais
profundos e se lança em busca de si mesmo.
A
cada tropeço uma lição, a cada decepção um
obstáculo para medir suas forças. A cada ofensa um detalhe que deve
ser esquecido. E aos gritos do desespero, o silencio da sua paz na eterna confiança
no Pai. Rasga seu peito e aos egocêntricos, revela agora sua face. Não
mais rituais e oferendas de todos os gêneros, nem formas arcaicas de vivências
primitivas. Seu lar agora é o universo e sua pátria, a imensidão
cósmica e seu futuro, Deus que irradia pôr todos os recantos do infinito.
Não vive mais o estertor agônico das almas presas as agruras da vida
humana, seu olhar é de quem é seguro de si, sua presença
inspira confiança, sua amabilidade é disputada pôr todo cidadão
de sensibilidade sadia, suas opiniões particulares nunca ultrapassa os
princípios da lei de equilíbrio, seus sentidos são mais aguçados
torna-se dono de uma grande acuidade mental que o possibilita, ingressar em dimensões
inimagináveis pelo ser ainda preso aos liames materiais.
Rejuvenesce
se a cada ano, corre, brinca mas seu olhar esconde a profundidade dos horizontes
no infinito. Não são, mais sérios, e sim, serenos. Seu sorriso
sadio agora tem hora certa, seu peito arfa cansado e chora a saudade do infinito,
não mais a revolta nas agruras da trilha humana, mas sim o amor pela experiência.
Agora aliado do tempo corre em busca do seu passado para acertar no futuro que
agora é presente. Nas horas de descanso em prece, dos olhos suas lágrimas
rolam, relembra em imagens que define muito bem e rememora os passos daquele jovem
que ensinou o amor pelo amor. Agora solitário entre gentes, sente a insignificância
do que significa para o seu irmão ainda materializado. A turba se revolta
e chora, ele fica em silencio, sua mente atinge a amplidão do cosmos, não
pode mostrar seus motivos e razões, eles não podem ser materializados,
e pôr isso, em sua alma corta o silencio.
Olha
a mãe terra e vagueia pêlos horizontes que ainda outros não
sentem e nem vê. O vento lhe toca a face trazendo uma brisa macia e suave
todo seu ser estremece e chora, ergue e se abraça a mãe terra e
seu pensamento como relâmpago viaja pôr todas as latitudes, vê
seus irmãos e de um lado a outro do planeta, com sua simplicidade vai até
eles e os sente e os toca. Vivendo este infinito amor sente se pequeno ante a
grandeza do Pai, sabe não ser insignificante, agora é consciente
do seu valor que não é mais que os outros. De joelhos em pensamento
reverencia sua própria grandeza. Está no seu lugar e quer participar
da cocriação das vidas agora nascentes. Sua vontade é não
ter vontade, mas sim viver a vontade do Pai. Neutraliza-se ante a grandeza de
sua lei a qual intrinsecamente está ligado, e recorda ao longe os conselhos
de nobres amigos, vai e viva com eles, mas nunca como eles... Retorna no tempo
e vê a mulher, a excelsa companheira na sua trajetória evolutiva,
percorre pêlos anais da história e sente sua dor, que muito distanciada
da efêmera figura da fêmea de outrora, se desdobra ao cumprir suas
reais obrigações.
Sente
a irmã que ela é e a seu lado quer estar, sente a sua realeza escravizada
aos instintos mais vis e mais torturantes. Seus mais nobres sonhos ainda manipulados
e tripudiados pela sórdida teia de apetites rudes daqueles que nasceram
para caminhar lado a lado com ela. Projeta se para o futuro e delineia nos arcanos
do seu porvir e sua mente queima, mas vence os padrões rígidos da
matéria. Cresce em seu intimo o êxtase e se aquieta, agora sabe,
agora confia, o futuro da irmã não é mais segredo, só
lamenta vê-la atrelada aos arreios instintivos da dor que vergasta sua excelsa
figura, sua imagem como voz sem som pinta em sua tela mental em contornos angelicais
e vê a miniatura translúcida de Maria refletida em cada rosto feminino.
Mesmo que a primitividade das linhas filogenéticas lhe traem os sagrados
contornos da forma ainda nascente, mesmo que ainda requeimada pelo sol causticante,
mesmo que ainda torturada pela tempestade vergastante do seu primitivismo interior,
mesmo assim deixa transparecer a terna e suave Maria de Nazaré.
Vastos
horizontes no infinito sua visão busca, acelera em seu peito um minúsculo
coração, mas sua febre do perfeito se acalma, agora vê o enigma
da criação, a sente, a toca. Seus olhos voltam-se para infinito
e de algum ponto que não pode definir nem materializar vê que milhares
de fagulhas como miríades multicores se desprendem de algum lugar e jorra
para o cosmos num rendilhado de intraduzível beleza. Seus sentidos ainda
imperfeitos ouvem a voz sem som, a perceba, a sente, mas não a vê,
a música evola de todos pontos e o toca, o faz viver, sente-se arrebatado
e contempla no êxtase e se esforça para não se desintegrar.
Aquela força gigantesca o atravessa penetrando todo o seu ser, o amor e
a beleza como jamais viu ou sentiu atinge as culminâncias. Seu peito arfa
e de seus olhos duas lágrimas quentes rolam, prostra-se de joelhos perante
o irmão maior e no estertor da felicidade infinita clama, Pai!... Sua voz
se entrecorta no átimo daquele instante e se nega, mas sua dor é
percebida, sente um raio de safirina luz o atingir, no fragor da tempestade de
sons e cores se acalma, sabe quem está ali, o sente, o percebe, o ouve,
mas não pode materializar a linguagem do amor e do perfeito enquanto o
instante parece ser uma eternidade.
Observa
mais uma vez a seu redor, como se dissesse adeus quer levar tudo aquilo e depositar
no coração de cada ser, mas não pode, sente aquele que o
arrebatou e sente a sua profunda tristeza pela humanidade irmã e com ele
chora o pranto dos que vencera as dimensões e até ali, as trilhas
da animalidade, não mais odiada, mas sim compreendida, imensa é
sua dor, mas gravou em si a férrea lógica, e a perdoou, ao Pai nada
pede, só agradece, tudo já recebeu e não deve nada, aquele
que o criou não o criou devedor e agora sabe porque existir, respondeu
a ultima pergunta que o atormentava. E no silencio seu olhar volta para o cosmos
infinito e absorve toda beleza do criado, sua visão não mais limitada
pêlos horizontes dos universos materializados penetra livre os escaninhos
cósmicos e observa, e no ápice da sua paixão pelo Criador,
contempla as fagulhas do seu amor rodopiando na figura das galáxias e seus
sistemas. Sente que deve e quer participar e antecipa a sede do saber sente o
ser que o observa e não quer que ele se sinta pequeno. Diante do imenso
que o envolve sabe ser confiante e não teme, se entrega, ele nada lhe impõe
apenas compartilha seu imenso amor, num rastilho de ternura como a dizer, vede
teu futuro, não temas, venha à min, sou teu irmão, Eu sou...
Os olhos como se fechassem no silencio do segundo que passa, esta só, somente
a suave melodia e a mãe terra e a multidão de irmãos que
junto a eles sente estar cada vez mais. Fecha os olhos mais uma vez e ouve seu
silencio, sabe agora estar em seu lugar e ao mundo abraça e ergue sua bandeira
e nela somente uma palavra que sente definir seu objetivo, TRABALHO...
Educado
pela dor e pelo sofrimento vergastante, cansado da refrega, repousa um instante
e ouve a sinfonia da vida, que num convite a prece lhe afaga o peito, como suave
brisa na alma a lhe dizer: Filho! Estás cansado da luta que te abates?
Descansa um instante no eterno caminho da vida, deixa o fardo das tuas expiações
e repousa. Recobra suas forças e não teme mais a morte nem a dor,
elas não são extinção ou maldade, mas representam
o ritmo da renovação e da vida em sua evolução. Não
mais presos a formas arcaicas, não mais os padrões ensandecidos
e animalescos de outrora, todas as formas de vida educacional do passado, já
não servem mais. Agora pleno de sua consciência e liberto dos liames
que acicatava as emoções inferiores veste o seu traje nupcial e
se coloca à frente do trabalho com amor ao seu e ao progresso de todos.
Fraternidade amor e humildade, esse o lema da sua bandeira agora, não mais
pedaços de pano pintando o separatismo, sua pátria o universo, seu
futuro Deus que irradia pôr toda eternidade.
Iluminado
pela luz do progresso no amor, volta então para a ciência do espírito
e com o seu toque mágico procura melhorar e embelezar todos os setores
de aprendizagem e de convivência social. Uma nova capacidade de penetração
psíquica revela sem sombras o mistério da alma. Desnudo aparece
todo o ser, não mais é possível a mentira, pois ao lado de
uma concepção diversa da vida, um novo estado de alma paira nas
coisas, uma harmonização completa com as leis para sentir e viver
o criador. O espírito repousa numa grande calma interior, a paz de quem
conhece a meta. E consciente de sua personalidade e da gênese de todo o
seu instinto, cujos traços encontram se no eterno passado. Sabe a sua história,
tecida de férrea lógica cujos traços ficou no tempo que nada
morre. Nenhum valor se perde nunca e sobre essas bases antecipa o seu futuro,
o preparou, daí o domínio de todas as forças e do próprio
Eu. Com o saber conduzir-se dominador dos impulsos da vida, compreendeu a dor
e não se debate mais no tormento da rebelião, da ira e da inveja.
Reconstruindo no silencio consciente, assume todo labor do próprio dever
sem transferi-lo a ninguém.
A
harmonia interior é a sua grande festa. A alegria de sentir unido a grande
harmonia cósmica o leva a revogar sua tristeza ao passado e agarrar se
a charrua e sereno tijolo a tijolo reconstruir seu destino. Humanos são
os motivos, mas reais os são. Redescobriu os pedaços de sua face
que se quebrou num passado distante. Na Terra agora solitário entre gentes,
chora e não define seu pranto, mas sabe conviver com sua imperfeição.
Na alma a saudade não sabe de onde ou de quem, é preciso ser assim,
sente o amargo na sua doce prisão e à medida que o corpo envelhece
a sua liberdade se aproxima. Não teme mais o pecado e nem chora o erro
cometido, pois viveria melhor se eles... Sente que eles ainda fazem parte de sua
intrínseca inferioridade temporária e não se envergonha,
pois ainda sentindo o calor do abraço do irmão maior que o fez compreender
os dois ápices de sua vida, quem poderá censurar então? Percorrem
os continentes idos e a dor vencida deixa do seu pranto cada lágrima no
chão que formou seu berço e sua índole. Acena triste aos
alunos que nela fica e a pátria o acena, vive a dor dos antepassados e
busca suas raízes no espírito dos tempos. Dos Atlantas aos Cirílicos,
do Egito as Gálias, do Oriente ao novo continente poucas são as
páginas para receber o que nele se passa, desde lugares e paisagens como
num filme que nunca termina e eterniza o desenrolar constante de sua dor e lágrimas
num misto de felicidade e sofrer. Deixo os poetas a tecer no verbo cortante a
definir sob a pena a unir os fragmentos da paixão e enternecer com sua
poesia cósmica, os rebentos a formar nos labirintos do tempo, novas culturas
e como base nossa dor e nossas lágrimas, pois o entardecer de uma civilização
é sempre a alvorada de outra, mais consciente e mais perfeita na compreensão
do criador.
Fontes
de estudos: literatura Espírita.
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