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CAUSALIDADE E SALVAÇÃO
A Doutrina Espírita não é uma "doutrina salvacionista"

"Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também.
Respondendo-lhe, porém, o outro repreendeu-o, dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença?
Nós na verdade com justiça, recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez.
E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reino.
Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso." (Lucas 23: 39 - 43)

Dos quatro evangelistas, apenas Lucas anotou o diálogo, acima, entre Jesus e o "bom ladrão"; os demais, Mateus e Marcos anotaram que os dois crucificados "dirigiram impropérios contra Jesus," fazendo coro com o populacho, sacerdotes, escribas e anciãos; João anotou que "Jesus foi crucificado e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio"...
Considerando, então, a passagem evangélica de Lucas, os detratores da Doutrina Espírita, em particular, e das doutrinas reencarnacionistas em geral, dizem que para a salvação basta se arrepender e aceitar Jesus e, até mesmo, numa "conversão na hora da morte", como na passagem evangélica em apreço. São os "salvacionistas" que situam Jesus ou Deus nas suas dimensões mesquinhas, ou seja, nos caprichos humanos de que, ao arrepio das leis divinas, é concedido privilégio, por mero paternalismo, àquele que, após uma vida pecaminosa, se converte na hora da morte. Ora, pode ocorrer a conversão, porém, há que haver, após o arrependimento, a reparação dos males cometidos. Não significa que, aceitando Jesus, já se está "salvo", isento de se retornar a este planeta ou alhures noutro deste Universo, ingressando direto no paraíso.
"O paraíso não é um lugar determinado, numa estância escolhida, e nem tão pouco a sede da suprema bem-aventurança." (*) É um estado de alma, não um lugar em que se adentra, mas uma introspecção, conquista de uma posição melhor na escalada evolutiva, através da luta contra as próprias imperfeições.
Evidentemente, Jesus, com sua clarividência do mais recôndito da alma das criaturas, considerou que aquele homem estava predisposto ao aprendizado evangélico; era como a terra já preparada para receber a semente; bastava a semeadura. Admitira os seus erros e a justeza do corretivo que lhe era imposto; pelas suas palavras "lembra-te de mim quando entrares no teu reino", subentende-se que estava mais ou menos conscientizado dos ensinos de Jesus.
A expressão "hoje estarás comigo no paraíso" significa algo mais grandioso do que um dia de vinte e quatro horas: é o momento em que o homem desperta para volver os seus passos rumo às reais finalidades da vida que, sem dúvida, é a marcha ascensional positiva que o situará em melhores patamares. Contudo, isso demanda em novas atitudes, além de palavras, mero arrependimento e do desejo, muitas vezes, fugaz de se tornar um seguidor do Cristo. Aquilo que julgamos bom, nem sempre o é na realidade, porquanto, pode nos faltar um sentido. É como aquele que busca informação sobre o panorama que se descortina do cume de uma montanha, antes de escalá-la. Àquele "bom ladrão", em que pese a sua boa predisposição, faltava-lhe esse sentido, o qual seria adquirido através da vivência


das vidas sucessivas e da escalada da montanha que, a rigor, é apenas o acervo das erronias do passado. Assim, a "conversão na hora da morte" não é um argumento assaz convincente contra a Doutrina Espírita, em particular, e às doutrinas reencarnacionistas em geral, como ficou dito acima.
Para a compreensão das palavras de Jesus, há que se considerar que ele falava sobre a vida futura, acima do imediatismo humano. A promessa que fez "não significa mais que o conhecimento de situação que daria àquele infeliz, após a sua passagem para a outra vida. (...) Esse conhecimento Jesus o prometeu proporcionar ao "bom ladrão", respondendo à súplica que ele lhe fez. E, pelos evangelhos, nós vemos claramente que o próprio Jesus não foi para paraíso algum. Em seguida à sua morte, ele ressuscitou e ficou, mesmo, na terra por espaço de quarenta dias, aparecendo a uns e a outros, como dizem as escrituras e como também o pregam o Catolicismo e o Protestantismo. (*)
Acrescentando ao que ficou dito no quinto parágrafo acima, "a expressão "hoje estarás comigo no paraíso", não quer dizer outra coisa senão: hoje conhecerás a imortalidade, conhecerás a tua situação futura e verás o Mundo Espiritual, no qual te acharás." (*)
Causalidade, relação de causa e efeito, é uma lei divina que não pune; ao contrário, nós é que nos punimos, a nós mesmos, pelas nossas más ações cometidas nesta ou em vidas pregressas. É, também, o determinismo, antítese do livre arbítrio, ou seja, somos livres para os cometimentos bons ou maus, porém segundo estes, os resultados serão equivalentes e não serão tomadas de posições imediatas que nos trarão a "salvação". A Doutrina Espírita não é uma "doutrina salvacionista"; é uma doutrina que esclarece de onde viemos, porque estamos aqui e para onde vamos.
Para nós, espíritas, a parte final desta tríade esclarecedora, ou seja, "para onde vamos", alija a "salvação" que viria exteriormente, porquanto a mesma está em nós, são as nossas potencialidades interiores despertadas pelos postulados espíritas, dos quais citamos: "A Doutrina Espírita muda inteiramente a maneira de se encarar o futuro. A vida futura não é mais uma hipótese, mas uma realidade; o estado das almas, depois da morte, não é mais um sistema, mas um resultado da observação. (**)

Bibliografia
(*) O Espírito do Cristianismo, Cairbar Schutel, págs. 217/218, 4ª Edição O Clarim - 1953.
(**) O Céu e o Inferno, Allan Kardec, 1ª Parte, Cap. II, nº 10, pág. 22, 16ª Edição I.D.E. - 1999.

(as.) Julio Laurentino de Lima - juliollima@uol.com.br

(Artigo publicado no jornal O Clarim, Novembro/06, pág. 7)

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