O BATISMO
"Eu vos batizo com água para arrependimento;
mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do
que eu, cujas sandálias não sou digno de levar.
Ele vos batizará com o Espírito Santo e com
fogo." (Mateus 3: 11)
Com pouca diferença de exposição, os
demais evangelistas, Marcos (1: 7 - 8), Lucas (3: 16) e João
(1: 26 - 27 e 33), escreveram a mesma coisa.
Parece-nos que não há necessidade de muita
exegese para interpretar o texto supracitado, bem como dos
demais textos referidos, para os quais, remetemos os nossos
diletos leitores.
Sintetizando, os textos ressumam o seguinte: João fez
referência ao seu batismo com água e ao batismo
de Jesus que seria com o Espírito Santo e com fogo.
Enfim, não se colocou em situação definitiva,
apenas provisória, como precursor de Jesus, a fim de
reconhecê-lo e anunciá-lo ao povo, cumprindo
a profecia de Isaías, cap. 40, v. 3. Seu objetivo,
evidentemente, não foi o de criar nenhuma cerimônia
ou sacramento. Então, temos dois tipos de batismo:
batismo com água e batismo com o Espírito Santo
e com fogo.
Qual deles deve prevalecer? Evidentemente, o batismo com o
Espírito Santo e com fogo, porquanto o batismo com
água, segundo os textos evangélicos, foi provisório,
ou seja, até Jesus ser anunciado pelo seu precursor
- João Batista -; após a anunciação,
entrou em vigor o batismo com o Espírito Santo e com
fogo.
Para um melhor enfoque, temos o Batismo de João e o
Batismo de Jesus. Primeiro, vamos considerar o "Batismo
de João":
A uma questão proposta pelos principais sacerdotes
e anciãos do povo, quanto a sua autoridade, Jesus perguntou-lhes:
"Donde era o batismo de João, do céu ou
dos homens?" Ficaram "num beco sem saída":
se respondessem do céu, Jesus diria, "porque não
acreditastes nele?"; para responder dos homens, temiam
o povo, porque todos consideravam João como profeta.
Assim, responderam: "Não sabemos". Jesus
concluiu: "Então, nada direi sobre a minha autoridade."
(1)
Observe-se, nesta passagem evangélica, que Jesus fez
referência ao "batismo de João". Jesus
nada disse sobre a sua própria autoridade, diante da
comodidade egocêntrica, hipócrita, dos sacerdotes,
preocupados, tão somente, que ele - Jesus - estaria
excedendo às suas autoridades eclesiásticas.
Evidentemente, a autoridade de Jesus era, acima de tudo, moral
e de quem é o Caminho, a Verdade e a Vida!
"O batismo de João nunca mereceu a sanção
de quem quer que fosse, inclusive de Jesus, que o chamava
- de João -, isto é, humano, pessoal, e não
divino, espiritual." (2)
Outra, quanto ao "Batismo de João", agora
de Paulo, o Apóstolo dos Gentios:
Paulo perguntou a alguns discípulos: "Em que fostes
batizados?" Responderam: "No batismo de João."
Concluiu Paulo: "João realizou batismo de arrependimento,
dizendo ao povo que cressem naquele que viria depois dele,
a saber, em Jesus." Após, os batizou em nome do
Senhor Jesus; e impondo-lhes as mãos, veio sobre eles
o Espírito Santo e falavam em diversas línguas
e profetizavam. Eram ao todo uns doze homens. (3)
Observem, também, que nesta, Paulo, além de
explicar o batismo de João, considerou-o inócuo,
pois, batizou novamente os discípulos; agora, com o
batismo de Jesus; acrescendo que, não os aspergiu,
nem os introduziu na água, apenas impôs-lhes
as mãos, quando veio sobre eles o Espírito Santo,
isto é, um coletivo de bons espíritos, e passaram
a falar diversas línguas; nada mais do que mediunidade
de xenoglossia ou de médiuns poliglotas, segundo os
postulados espíritas. Fato símile á reunião
mediúnica do Dia de Pentecostes no cenáculo
de Jerusalém. (Atos dos Apóstolos, cap. 2, vv.
1 a 13)
Diante deste quadro, há que se fazer o seguinte confronto:
por que as igrejas cristãs se ativeram ao batismo com
água? E não ao batismo com fogo?
É evidente. A água, para ser prejudicial, tem
que ter certa profundidade, expondo ao risco de vida os incautos
e mesmo aos exímios nadadores... O fogo, não
há como contemporizar, queima e tal é doloroso...
Dirão: é apenas simbólico. Certo, nós
não levamos nada "ao pé da letra";
contudo, a tendência para a água não é
significativa? Pelo batismo e por esta, quantos já
morreram afogados? Não me consta que, pelo mesmo motivo,
alguém tenha sofrido apenas uma chamuscada... Se no
lugar de uma pia batismal - no caso de nenéns -, ou
de tanques, lagoas ou de rios - no caso de adultos - colocassem
uma pira, não acredito que alguém se aventurasse
a sofrer uma queimadura...
Assim, parece-nos que o símbolo, até certo ponto,
seja útil; porém a partir deste, com o crescimento
e conseqüente evolução, torna-se pedra
de tropeço.
Dizem "quem não foi batizado é pagão!"
Ora, o batismo com água é originário
do paganismo. Não é um contra-senso? Vejamos
a etimologia da palavra batismo:
Vem do grego "baptismós", que significa "mergulho".
Quem mergulha, normalmente, mergulha na água... Os
sacerdotes de uma religião na Grécia Antiga
receberam o nome de "baptas", porque mergulhavam
na água antes do ofício das cerimônias
em louvor de uma deusa de nome Cotito.
Daí o cognome de João: Batista é originário
de "bapta", porque batizava com água no Rio
Jordão, logo, ficou conhecido como João Batista.
Dizem, também, "Jesus foi batizado por João
Batista". Estudem com atenção os textos
evangélicos de Mateus 3: 13 - 17, Marcos 1: 9 - 11,
Lucas 3: 21 - 22, os quais, realmente fizeram alusão
ao batismo de Jesus, porém, para resumir, anotamos
as seguintes palavras que, com pequena diferença, foram
escritas pelos três evangelistas: "Eu (João
Batista) é que preciso ser batizado por ti, e tu vens
a mim?". Resposta de Jesus: "Deixa por agora, porque
assim nos convém cumprir toda a justiça".
Após o batismo, ouviu-se uma voz dos céus: "Este
é o meu Filho dileto, em quem me agrado". O que
ressalta dos textos considerados?
Transitoriedade do ato e anúncio, segundo o próprio
João Batista, daquele que viria a batizar com o Espírito
Santo e com fogo!
Por que não citamos o Evangelista João? Porque
o mesmo não fez referência ao batismo de Jesus.
E, aqui, perguntamos: Jesus teria que ser batizado com água?
Outro contra-senso: os nossos opositores confundem Jesus com
o próprio Deus; ensinam que o batismo é para
"apagar o pecado original" e é um sacramento
da igreja... Que Deus é esse? Limitado ao tamanho das
suas criaturas?
Podemos considerar o "pecado original" em relação
a nós mesmos; representaria, assim, o acervo das nossas
próprias imperfeições e faltas cometidas
nas encarnações anteriores e não às
alegóricas figuras de Adão e Eva...
"Vem de tempos tão remotos o uso do culto exterior,
e a humanidade tanto restringiu sua religião a práticas
externas e ao ritualismo das igrejas, que a Religião
do Espírito quase desapareceu do coração
humano, abafada pelo joio que os homens semearam na Seara
do Senhor." (4)
Temos que ser enfáticos, quanto ao batismo com o Espírito
Santo e com fogo. Não é o batismo no corpo,
é o batismo no espírito e este, como ficou dito,
é o batismo de Jesus que, com a nossa transformação
moral e conseqüente comunhão com os bons espíritos,
importando na "queima" das nossas imperfeições
pelo fogo depurador, realmente nos ajuda na ascese evolutiva,
propiciando o nosso batismo.
Emmanuel dá uma conotação familiar e
concludente ao batismo:
"Os espiritistas sinceros, na sagrada missão de
paternidade, devem compreender que o batismo, aludido no Evangelho,
é o da invocação das bênçãos
divinas para quantos a eles se reúnem no instituto
santificado da família."
"Longe de quaisquer cerimônias de natureza religiosa,
que possam significar uma continuação dos fetichismos
da Igreja Romana, que se aproveitou do símbolo evangélico
para a chamada venda dos sacramentos, o espiritista deve entender
o batismo como apelo do seu coração ao Pai de
Misericórdia, para que os seus esforços sejam
santificados no trabalho de conduzir as almas a ele confiadas
no instituto familiar, compreendendo, além do mais,
que esse ato de amor e de compromisso divino deve ser continuado
por toda a vida, na renúncia e no sacrifício,
em favor da perfeita cristianização dos filhos,
no apostolado do trabalho e da dedicação".
(5)
Vejam! Quanta celeuma por algo que a religião transformou
num sacramento e que, aqui, com a lição de Emmanuel,
temos uma definição simples e objetiva! Ao alcance
de todos os que com boa vontade queiram, realmente, se batizar
no espírito, ou seja, na própria família
que constituímos, na célula mãe da sociedade,
no berço daquele que retorna à carne, enfim,
aos que nos unimos pelos laços do matrimônio.
Se honrarmos esta posição social e familiar,
estaremos comungando com o Espírito Santo, isto é,
com os Bons Espíritos, e sendo batizados pela nossa
transformação, deixando o homem velho e se tornando
o Homem Novo pelas luzes do Evangelho de Jesus! Tal é,
verdadeiramente, O BATISMO!
(1) O Evangelho de Mateus 21: 23 - 27.
(2) O Espírito do Cristianismo, Cairbar Schutel, pág.
166, 4ª Ed. O Clarim - 1953.
(3) Atos dos Apóstolos 19: 1 - 7.
(4) O Batismo, Cairbar Schutel, toda a obra, 6ª Edição
- O Clarim - 1986.
(5) O Consolador, Emmanuel, psic. F.C.Xavier, pág.
175, 6ª Ed. FEB - 1976.
Nova Veneza - 15/11/2007.
(as.) Julio Laurentino de Lima - juliollima@gmail.com
(Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo,
Julho/08, pág. 315)
| 
|
| INICIO |
 |